quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Esconderijo

Por vezes, eu me dou conta de que sou aquela pessoa que se escondeu no óbvio, no profundo buraco negro da mesmice. A solidão é tão fácil, a inércia é tão saudável... Um esconderijo falho, uma remissão atrapalhada. E a fantasia é tão fácil... tão cálida, como a velha amiga de braços abertos a esperar por mim. Talvez não a amiga, mas o amante terno, saudoso, aconchego puro em deleite e torpor. Assim, fácil. Fantasia e solidão são parceiras, comparsas, cúmplices. As duas esperam-me às portas da quietude. O dilema é ceder ou resistir a essa paixão fantástica e solitária. Como se fosse possível resistir à paixão...

38 dias

Tive um sonho dia desses. Sonhei com uma cena, um momento, um trecho. De manhã, depois do sonho, a história me possuíu. Inteira, inalterável. Simplesmente se apossou de mim. Tomou-me de assalto por 38 dias inequívocos. 38 dias de absoluto mergulho nas palavras, esquecendo trabalho, filha, marido. Os 38 dias que eu não vivia a quase duas décadas.
Depois desses 38 dias, o livro, em suas 200 páginas, estava pronto. Esse que me veio de presente sabe-se lá de que canto do mundo dos sonhos. Assim que terminei, que digitei o último ponto final, um vazio tão triste tomou o lugar daquele calor de viver outras peles.
Era o medo voltando. O mesmo medo que me travou vinte anos antes desses 38 dias. O medo de não ser bom, o medo de não ser lida. O medo de criar para ninguém. Artista não é artista sem público. Um livro inexiste sem leitores.
Hora de engavetar o medo. Estou muito velha pra não me arriscar. Decidi publicar. Não vou me guardar na gaveta dessa vez.

In-Tolerância Literária

Já me disseram que "ler me cansa". Já me disseram que "não é que eu não goste de ler. Eu não tenho é paciência". Já me disseram "tenho preguiça, me conta aí a história". Já ouvi de tudo. E a maior agonia de um escritor é não ser lido. Não interessa se a cobaia vai amar ou odiar o que vai ler. O que interessa é que leia!
Livros são objetos mágicos, a absoluta obra de arte da criação humana. Tem gente que lê até bula de remédio. Tem uns que não conseguem não ler. E tem os outros. São esses que doem na gente.
Talvez, por isso, eu não escreva mais. No fundo, eu sei que esses intolerantes não vão ler. Tem gente intolerante à lactose. Tem gente intolerante à literatura. Daí fica esse ócio criativo sem mérito, sem expressão. E inexpressividade não combina com o ofício do escritor, com sua condição pensante, existente.
Quem quiser fazer doer um escritor, que não o leia. É a maior das agressões. Não inventaram ainda mal pior. Mesmo que seja leitura dinâmica, mesmo que só as orelhas do livro, leia. Mesmo que seja pra dizer que é ruim.