sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Adágio

Mas o que resta de mais difícil é saber que tu não existirias aqui comigo. Que, por mais que a afinação da corda esticada beirasse o canto do rouxinol, não haveria ouvidos disponíveis para apreciar. Essa nossa afinação, sintonia fina, aprendida e apreendida com o tempo - todo esse tempo tão nosso - e que, enfim, não soa mais alto que o silêncio das tardes tecladas.

E o pior é a certeza de que, mesmo que a orquestra tocasse outra música, não dançarias comigo. E saber que os nossos saberes compartilhados jamais versarão juntos pelo limbo das ideias. E encarar o fato de que me queres assim, à distância. Nenhum toque, nenhum olhar. Apenas a imaginação dançando ao sabor de um beijo roubado, distante, em um raro momento no qual as cordas pararam de vibrar.

E o mais impróprio é perceber que esse teu não-querer é o que me comove. Cada momento gasto comigo, com essa parte virtual de mim, me dizendo através do vento que me percebes, que me lês tal qual partitura, com olhos treinados, mas distraídos. Mais que atenção, deleite. Mais que carícias, carinho.

Mesmo assim, a consciência de não executar qualquer melodia pela tua mão me entristece. Mais ainda porque, mesmo que eu fosse única e una, tu ainda irias preferir ser um solo e não um dueto.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Ser ou não ser... solitário (parte 2)


(Inspiração by Kadu Lago)

Relembrando, a pergunta original foi: “Será que realmente é impossível ser feliz sozinho???”

Falei da solidão, do estar sozinho. Agora é o momento de falar do ser solitário.

Ser solitário não é uma condição social, é um estado de espírito. Solitário é aquele que não sente qualquer necessidade do outro. Solitário é aquele que, em termos gerais, se basta. Ele pode ter ou não amigos, parentes, amantes. Não importa, pois essas figuras são, de certa forma, descartáveis. Pessoas que passam por sua vida não deixam marcar mais do que momentâneas, se é que deixam alguma marca. E a saudade ou a dor o atingem mais até do que às pessoas comuns, sociáveis. Todavia, mesmo com toda a intensidade de um relâmpago cortando o céu, esses sentimentos são rápidos, acabam rápido. Abalam muito, mas passam! E o que fica é a força renovada de um ser auto-suficiente, indiferente.

Indiferença. Essa é a acusação recorrente do mundo ao solitário de alma. Alguém neutro, que não tem sentimentos. Mentira! Ninguém ama mais intensamente, apaixona-se mais dolorosamente, sofre mais devastadoramente do que um solitário. Por quê? Pelo fato de ser passageiro, de não restar nada depois. Ele, então, aproveita cada migalha, cada átomo de sentimento, de sensação. E depois volta a ser ele mesmo. Fácil assim. Egoísta? Lógico! O solitário só ama ou odeia verdadeiramente a um único ser, ele mesmo.

No frigir dos ovos, o solitário não precisa de ninguém porque não sente falta de ninguém, de nada. Tudo do que necessita está nele. E se falta algo, ele absorve durante esses rompantes de sentimentalismo que cruzam seu caminho de vez em quando. Esse indivíduo é, sim, feliz sozinho. E o mais engraçado (ou trágico!) é que o solitário só deixa de sentir-se só quando estende a si mesmo à figura de um filho. Entretanto, até esse laço é contextual. Pois o solitário é aquele pai/mãe que vai deixar esse filho seguir livre quando for o momento, sem drama, sem posse.

Se você é um desses híbridos, você é feliz sozinho. E felizes das pessoas que tiverem o privilégio de desfrutar de você, seja pelo tempo que for. Porque você vai se dar ao máximo e exigir tão pouco. Só o suficiente para absorver o que falta. E na hora do adeus, porque sempre vai chegar essa hora, você vai sorrir e deixar aquela pessoa partir.

Alguma semelhança? To mentindo? Continuo chovendo no molhado? Tudo bem, já terminei!

Ser ou não ser... solitário (parte 1)

(Inspiração by Kadu Lago)

A pergunta original foi: “Será que realmente é impossível ser feliz sozinho???”

Tenho que começar por Schopenhauer. “Cada um só pode ser ele mesmo, inteiramente, apenas pelo tempo em que estiver sozinho. Quem, portanto, não ama a solidão, também não ama a liberdade: apenas quando se está só é que se está livre”.

Estar sozinho e ser solitário são coisas absolutamente distintas. Sim, vou explicar. Aguentem.

Solidão é estar sozinho, sem a companhia de outro ser, pensante ou não. Solidão é o que sentimos quando conversamos com as panelas e sorrimos para a novela. Muito necessária essa condição para colocar as ideias em ordem, o trabalho em dia ou a louça no lugar. Contudo, depois do período de acertos internos, vem a sensação de que ninguém nos ama. É quando queremos trocar bobagens verbais, ou apenas uma companhia pra assistir tv. A maioria de nós consegue suprir essa necessidade do outro no convívio trivial com a família, com amigos, par romântico, estranhos nas baladas. Enfim... tem seis milhões de rostos aí fora pra ninguém cair em estado de solidão.

Alguns menos afortunados, no entanto, apesar dessa fartura de gente andando pelo mundo, não conseguem companhia para as mais obtusas ocasiões. Pessoas que choram pelos cantos e descontam na Internet a impossibilidade de fazer amigos, construir relações, aproximar-se de familiares, achar um grupo. São os miseráveis que precisam da companhia dos outros, mas que, por qualquer motivo, são incapazes de conseguir atenção. Ou acreditam que são! Suicidas em potencial, por tristeza e abandono. Esses são os que não entenderam que a melhor companhia do mundo está diante deles, dentro do espelho.

Rapidamente, temos que lembrar daqueles que, mesmo cercados de pessoas, parentes, amantes, encontram-se em eterno estado de solidão. Sentem-se abandonados e deslocados, odeiam festas e, ao que parece, quanto mais gente ao redor, pior é. Esses eu chamo de deprimidos crônicos. A meu ver, eles não suportam a si mesmos e, consequentemente, a ninguém mais. Ao mesmo passo, sentem falta de um ser ideal, que lhes faça companhia e lhes traga a tal alegria de viver. Idealizam, jogam sobre outrem suas frustrações e desejos. Nunca vão achar. Tenho pena desses.

To chovendo no molhado? É, eu sei! Você sempre tem a opção de parar de ler... Lembre-se, essa é só a minha opinião.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

A Tríplice da Morte

Pensem por um momento. Se a máxima fosse verdadeira, fatalista. Se, de fato, escrever um livro, ter um filho e plantar uma árvore fossem os três passos obrigatórios rumo ao falecimento. Se nós só pudéssemos morrer ante o cumprimento das três etapas. Se não adiantasse velhice, doença ou suicídio.

O mundo, com certeza, seria diferente. Teríamos muito menos árvores. Leríamos livros muito mais raros. Crianças, nós as teríamos às pencas, como é. Pois que se pode fugir à morte, não ao orgasmo.

Resultado inevitável. Oxigênio poluído, cultura escassa, superpopulação. Algo de semelhante nessa supra-realidade? Via das dúvidas, não pretendo plantar árvore alguma antes dos meus 80 anos...

A Resposta

Não importa para qual pergunta, para qual mal, para qual escolha. A resposta está sim, sempre, SEMPRE, dentro de nós. Acessar essa informação é a parte difícil. Por vezes, precisamos de ajuda. Mesmo que a resposta esteja ali dentro da mente, precisamos de ajuda para vê-la, tão sutil ela pode parecer. Esse auxílio bem-vindo pode ser de um amigo que nos sacuda, de uma atitude que tomam contra ou a favor de nós, de um profissional especializado em rastrear essas verdades que guardamos, de bolinhas coloridas que vêm em francos com tarja preta... Não importa. O importante é encontrar a resposta. E tenha certeza, se você realmente estiver disposto e souber como procurar, vai encontrá-la. Não se arrependa depois, pois a porta da loucura é sempre mais colorida...

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Perdida


Estou – com certeza, estou – perdida. Quando há muito a escrever, é porque nada há. E eu tenho escrito demais. É possível escrever demais? É como pensar demais. É possível não pensar? E é quando eu digo: Sim, é! Cale-se, cérebro! ...
Ainda estou ouvindo. Ainda estou perdida. Com certeza, estou perdida.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Medo de Quê?

Já escrevi sobre o medo antes. Parece um tema recorrente. Será que ainda não me livrei de todos? Certo, é uma pergunta retórica. Contudo, também é uma mentira. Não vim falar de medo, vim falar do oposto dele. Qual é o contrário de medo? Não, não é coragem. Coragem é aquilo que a gente usa pra ir adiante, pra tomar a frente, um rumo. Mas... e quando chegamos lá? Como se chama o sentimento quando tudo pelo que lutamos começa, finalmente, a acontecer? Devagar, bem lentamente, as peças vão se encaixando, a figura tomando forma sobre a mesa. Schopenhauer (adoro ele!) diz que “a glória deve ser conquistada; a honra, por sua vez, basta que não seja perdida”.

Honra e glória, as duas palavras que movem o mundo. Mente quem diz que solidariedade e altruísmo são mais importantes. Socialmente, são mais relevantes. Todavia, não conheço ninguém que não goste ou não se aproveite da fama. Mesmo os ermitões mais reclusos em suas cavernas úmidas aproveitam-se da publicidade a respeito deles para continuarem cada vez mais misteriosos. Estou mentindo?

Analisando, todavia, a sensação da conquista é assustadoramente semelhante ao medo. Principalmente se o objetivo conquistado demorou demais sendo alvo de tragédias e batalhas. Parece mesmo que perdemos algo quando o conquistamos. Ficamos tão habituados ao jogo de tentativa e erro que, quando acertamos o alvo, uma parte de nosso ser se torna inútil, sem propósito. A parte aquela que chamamos de coragem. Já não precisamos dela. Pelo menos, não tanto. Continuo mentindo? Sou um prato cheio para psicólogos, eu sei. Quem tem medo de ser aquilo que lutou para ser?

Não, isso não é um mea culpa ou um “senhoras e senhores, agradeço o prêmio, mas devo declinar da honra”. Ao contrário, a honra é toda minha. E é mesmo! Minha e de cada um de nós que batalhou anos a fio por qualquer coisa que seja. Que deu sangue, suor e sono por um objetivo. Que perdeu muito antes de poder ganhar. E é exatamente esse “perder muito” durante o processo de conquista que faz com que a glória seja menos proveitosa. Na verdade, não sei como devo me sentir diante desse vislumbre de honra e glória.

O homem que eu amo me disse, dia desses, que “o pior é nós termos ainda que pagar pela nossa arte”. É a frase que resume os milênios de luta. Depois de tudo, ainda estamos tentando. Nunca desistimos, nunca nos omitimos, somos guerreiros de nossa causa!

E, um belo dia, vencemos, conquistamos. Mesmo que uma pequena parte, mesmo uma moedinha de ouro que antecipa o tesouro. Conseguimos! Estou feliz? Sim! Radiante, devo dizer, pelo pouco que representa tanto. Mas, eu tenho que perguntar: e o que eu faço agora?

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

In(exata)Existência


Não vou mentir. Às vezes, sinto que não existo. Apesar de todo esforço social, de toda exposição, toda falta de pudores. Talvez, eu tenha mesmo nascido invisível. Ou, quem sabe, vibro em alguma outra frequência. Mas o fato é irremediável. Preciso de esforço constante para que me percebam.

Enfadonha tarefa esta, de forçar-se aos olhos dos outros. Um mísero segundo de descuido, de descanso, e as caras já se voltam para outra direção. É como se não houvesse ninguém ali. E esse ninguém sou eu, aos berros. Lastimável empenho jogado no lixo.

Penso que perco muito tempo tentando me fazer notar. Se ao menos um par de olhos, qualquer par, sorrisse de volta. Mas, não. A invisibilidade é torturante. Falo para que ninguém responda, respondo para que ignorem. Todo um jogo de aparições fantasmagóricas e irrelevantes, na maioria.

Já tentei a simpatia, o descaso, a agressividade, a eloquência. Funciona por um certo período e depois tudo volta ao vazio natural da indiferença. Vejo que as pessoas não falam comigo espontaneamente. Tenho eu que impelir a interação. É, mais ou menos, como xingar a voz eletrônica de um tele-atendimento qualquer. Inútil.

Existência e visibilidade andam de mãos dadas. Absurda a necessidade de interagir. Obtusa, seria mais apropriado dizer. Pois, tenho certeza de que existo. E sentir-se inexistente pela simples desconsideração alheia é bitolar-se ao que pensam os outros. Esses mesmos outros que me não-veem. Não-ver é um ato vergonhoso, envergonhador. A boa educação manda que sejamos agradáveis e cordiais. Mas, quem leva em conta o que a educação manda nesse novo existir de avatares e conversas seguras por trás de telas planas?

Contudo, ainda tenho que considerar a hipótese de que, quem sabe, eu realmente não exista. Que esta que escreve seja o espectro do que eu gostaria de ser. Que eu seja, enfim, um personagem de mim mesma. Pois que a única chance que tenho é de ser vista em letras. O único momento mágico no qual eu mesma me percebo é sobre o papel – eletrônico ou não. E a única vez em que existo de verdade é quando me leem. Como agora! Mas, já acabou.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Átomos e Firulas


Incrível como as coisas mais importantes acontecem e desmoronam num piscar de pestanas. Num segundo, está lá, com todas as flores e diamantes, champagne estourando atrás da rolha, dentes à mostra e todas as firulas da felicidade. No segundo seguinte, nada. E é nada mesmo! Caules murchos e sem pétalas, vidro estilhaçado, a taça quebrada, a lágrima salgada na língua.

O vazio de uma perda assim, perda do que ainda não se tem, é inigualável. Nem a morte parece tão nada quanto o nada de nada ter. Especialmente, se a perda é mental, emocional, idealizada. E é tão difícil não idealizar o que está quase ao alcance da mão... tão perto que dá pra sentir o cheiro...

Óbvio que o cérebro, esse soldado-amigo inseparável, avisa do perigo, tenta dissuadir de idealizar. Contudo, qual força temos de frear a imaginação, inimiga arqui do racional? E caímos no precipício do ilusório. Sonhamos. O pior é sempre descobrir que o sonho acaba. Mais uma vez terminado, quebrado em cacos de lágrimas cristalizadas.

E o pior mesmo, a gente sempre sabe que isso vai acontecer. Temos a certeza e a ignoramos porque somos passionais e ilusórios. Somos um bando de idiotas, isso sim. Néscios auto-iludidos sensoriais, dando de ombros aos avisos da mente que pensa.

Pensar não é o forte dos passionais, com certeza. Quando a aura e a névoa de irrealidade tomam conta, nada de raciocinar em termos lógicos. Aliás, lógica é uma palavra que perde o sentido diante da idealização impensada e imprecisa, mas que mexe tanto com cada célula, cada núcleo de átomo.

Átomos. Tudo não passa de átomos que motivam. Que nos fazem vivos. O que seria de nós, os passionais idealistas iludidos, se não pudéssemos firular?

Descoberta do Dia


Acabei de descobrir o que já sabia faz tempo. Desvendei o mistério, mapeei o labirinto. O mais incrível nessa descoberta, entretanto, foi descobrir que não descobri nada que eu já não soubesse. Constatação máxima da ociosidade da alma humana. A gente deixa assim o que incomoda muito, tentando ignorar aquela coisa que incomoda, na esperança de que ela se canse de incomodar e vá embora. É uma preguiça reativa, na qual a lei da ação não reage reação alguma. Inércia total de atitude. Ou inépcia.

É aí, então, que o tempo se aproveita e vai passando como quem não quer nada. E, se a coisa que incomoda ficasse quieta, passaria ao largo também. Mas, a coisa insiste. Vira e mexe, se mostra presente, dá uma cutucada só pra lembrar que está lá, observando a gente. Depois, faz que nem era com ela e sai abanando o rabo. Não sem antes deixar um rastro de desgosto, de uma sutil e milimetrada sensação de humilhação.

Humilhados, é assim mesmo que a gente se sente, porque sabe da coisa, vê a coisa, sente a incomodação da coisa, mas não faz nada. E o tempo passando ajuda nesse nadafazer quase cataléptico. Quanto mais tempo se passa, menor a reação perante a ação que incomoda. E a coisa sabe disso.

Fico agora pensando quantos textos sobre a coisa que incomoda eu já escrevi. Cada linha igual à outra, à próxima. Esse é o efeito do tempo que passa. Ainda percebo a coisa. Ela ainda incomoda. Pra dizer a verdade, incomoda cada vez mais, essa mesma coisa. O medo é, um dia, parar de perceber e acostumar com o incômodo. Quando não der mais bola, talvez o tempo pare de passar.

No entanto, como a coisa que incomoda, e que foi descoberta mais uma vez, é cada vez mais incomodativa, creio que não desapareça. Nem por inércia, nem por costume. Vai é continuar crescendo feito hera, tomando as paredes e tentando encerrar a percepção. A minha, no caso. Não há o que fazer. E agora que descobri, o tempo hoje vai passar depressa. Vai tentar persuadir a consciência, vai tentar fazer parecer normal o incômodo. E vai acabar conseguindo, como sempre. 

Será que a coisa sabe o quanto incomoda? Será que sabe que causa incômodo? Que, por ela, o tempo me envelhece mais? Creio que saiba e que não se importe. É a verdade. Talvez, até, se divirta. E o que mais dói na percepção, na descoberta, é que a coisa que incomoda nem sequer vai se dar ao trabalho de ler esse texto.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O LIVRO DE ELI - A real necessidade de Deus


Decidi escrever este texto porque estou indignada. Não levem, em todo caso, meu estado de raiva em consideração. Sou antirreligião, todos os que me conhecem, sabem. Contudo, pretendo versar sobre o filme O Livro de Eli e seu conteúdo massificador e estereotipado. Não gosto de estereótipos. Toda generalização é perniciosa e preconceituosa. Por quê? Porque é uma generalização. E seres humanos não podem e não devem ser generalizados. Somos todos únicos. Isso basta! 


Eli, Eli, Lama Sabactani? Ou seja, Deus, meu Deus, porque me abandonaste? 


O Livro de Eli nada mais é do que a Bíblia dita sagrada. Não é sem querer que o nome do personagem de Denzel Washington é “Eli”, que significa “Deus” em aramaico, a língua de Cristo na Palestina do século I (acredita-se). O filme é um guia, um manifesto. A terceira guerra nuclear, teoricamente, teria começado por culpa de um livro onde as “verdades” estariam escritas. Por isso, o tal livro foi queimado nos cinco continentes quando, na Terra, só restavam farrapos da civilização. Entretanto – e sempre tem um entretanto –, um homem recebe um “chamado divino”, salvando a última Bíblia impressa e recebendo a missão de resguardar seu conteúdo, levando-a em segurança até uma tal comunidade onde seu ensinamento será preservado para as futuras gerações. 

Certo, consideremos. A fotografia é belíssima, altamente contrastada e num tom de cinza avermelhado sublime. A atuação do protagonista é sempre a mesma – bom nível desde Philadelphia. Planos bem cortados e mesclando efeitos digitais sutis, bem incorporados, como quando a câmera “sai” de dentro do carro, passando por uma grade e sobe até um plano geral da perseguição no deserto. Ok. Os irmãos Allen e Albert Hughes sabem decupar um roteiro e dirigir um filme de ação intimista.

Mas – e sempre tem um mas –, o roteiro não me convenceu. O mundo caótico precisa da Bíblia para conseguir ser humano?... A civilização, depois de 30 anos de holocausto nuclear (e tem as crateras das bombas no filme), precisam da “palavra de Deus” para se tornarem realmente civilizadas?... Um homem que leva três tiros e não morre (porque tem proteção divina – milagre!) é o guardião do mais sagrado dos tesouros?... É ele quem alcança um lugar escondido, onde (miraculosamente) tem um tipógrafo em funcionamento e, de memória, porque já não tem o livro, recita-o antes de morrer, versículo por versículo?... Isso tudo depois de 30 anos de peregrinação para chegar até Nova Iorque?...

Chega de considerações! A meu ver, o roteiro nada mais é do que uma tentativa patética de evangelização. O mundo, mesmo no caos, precisa do conforto de Deus! E é bem claro no filme que a Bíblia em questão é católica, pois as poucas citações em voz alta remetem a essa versão do dito “livro sagrado”. Se ninguém ainda se deu conta, as versões católica, evangélica, protestante (etc.) da Bíblia são diferente. Por exemplo, na versão apostólica romana do conhecido salmo 23, diz-se “ainda que eu ande pelo vale das sombras da morte, nada temerei, porque Deus está comigo”. Na versão espiritualista diz-se “ainda que eu ande pelo vale das sombras da morte, nada temerei, porque Deus está em mim”.

Sutil, mas absolutamente diferente. Uma diz “Deus me ampara”, a outra diz “Deus sou eu”. O que quero dizer com essa explanação é que poucos no mundo se dão conta que Deus é uma ficção criada pelas várias igrejas das quais dispomos. Deus é uma bengala, alguém para se jogar a culpa por tudo. É assim desde a Fenícia, desde as florestas do norte, onde se cultuava sol e lua como divindades. Hoje, um filme teve a coragem de me dizer “Deus é a solução para o caos”. Incrível, pois esse Deus humanizado sempre foi, isso sim, o “motivo para o caos”. Preciso falar de Guerras Santas e Inquisição? Acho que não.

Um filme de Hollywood, indicado ao Oscar, deve dar-se ao respeito. Não tente doutrinar os gentios, não tente submeter os patrícios. Deus não está numa Bíblia, seja ela de que religião for. Deus não dispõe do poder de curar o mundo. O mundo quem faz, corrompe e cura somos nós, seres humanos. Não tente me cristianizar e transformar em um filme de ação dramática a proposta de que eu preciso de um livro escrito por homens não melhores do que eu para encontrar a divindade suprema. Se Deus habita em algum lugar, é dentro de mim, minha alma, meu cérebro. E eu tenho plenos poderes, plenos argumentos (livre arbítrio, costumam chamar) para encarar o caos ao meu redor. Muito obrigada!

Achei o filme uma tentativa frustrada de dizer que o Deus padronizado é o melhor para cada um. Que basta buscar a “palavra” e segui-la para combater o mal pessoal. Confesso que, bem antes do final do filme, eu já me sentia participando de um culto da Deus é Amor... Que me perdoem os crentes, mas, em certos casos, ceticismo é fundamental! E a análise cinematográfica é um desses casos.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Catarse nº2

"Estranho... as pessoas falam comigo e eu não consigo me concentrar... E se consigo, algo oscila e eu me perco naquele segundo quando o chão sumiu e o centro da cidade ficou em silêncio..."