sábado, 26 de março de 2011

Porto Ensaio

A primeira vez que abri meus olhos, me peguei vagando por avenidas estranhas, repletas de carros reluzentes e casarões sombrios. E, apesar da fumaça espessa que ofusca o brilho dos prédios de uma rua sem praia, tudo é tão cálido, tão pálido, tão meu, que me fascina.

Meu caso de amor começa assim, dentre praças e monumentos, catedrais, palácios, viadutos. E uma brisa calma que agita as águas daquele rio feito lago das lágrimas tristonhas da metrópole.

Te amo tanto que, por vezes, te renego. Rumo para outros rumos em vão. Não te olho e não te sinto, na tentativa de te afastar de mim. Mas me pego sonhando contigo. E cada passo do meu caminho me leva de volta ao teu centro. Impossível esconder o desejo de rever teus detalhes, teus traços, teus largos. Tuas primaveras perfumadas e teus invernos de redenção. Tuas linhas que para sempre me envolvem nesse abraço frio e cinzento.

Impossível abandonar o sentimento, apagar tuas cores, cobrir tuas formas. Tentar te esquecer. Porque o meu mundo te compõe. Busco por ti em cada beco, em cada rosto. Tento te trazer comigo e te recrio aonde quer que eu vá.

Mas, é só quando volto a te olhar de frente que te encontro em mim, meu aconchego. Pois, te domino e te pertenço, meu pedacinho de espaço. Meu canto, meu sonho, meu porto. Meu eterno ponto de partida. Minha chegada. Quase sempre oculta, quase sempre distante, quase triste. Mas sempre perto, sempre minha, Porto Alegre.

(Texto originalmente produzido para o curta-metragem em super-8 “Ensaio”, de Alberto La Salvia, 1999)

Aos que eu amo...

Existem dois homens que amo incondicionalmente, e que se completam. Se pudessem ser misturados num caldeirão, unidos, seriam “o homem perfeito”. Um é verborrágico e desmedido, o outro monossilábico e contido. Um irritável, o outro explosivo. Um solta gargalhadas espontâneas, o outro apenas sorri.

São tão iguais e tão opostos esses dois homens. Um finca os pés na terra, o outro abre as asas ao céu. E, mesmo assim, se compartilham, se completam. Pudera eu tocá-los uma única vez. Saberia, enfim, que são reais. Tão perfeitos que se tornam juntos, poderiam ser o fruto colhido de minha imaginação.

Tão especiais esses dois, que não sei qual é mais doce, mais terno, mais meigo, mais irreal. Quem dos dois é idealizado, quem dos dois é factual. Tão distantes esses dois homens, que se tornam um único eco, um único espectro, um único sonho. Tão silenciosos, que são a luz e a sombra, a brisa morna e a tempestade. Tão únicos que se tornam um.

Tão especiais os dois homens que eu amo. Um com o frescor da primavera, o cheiro da infância. O outro com as feridas da vida, o gosto do mundo. Juntos, são verões tórridos e invernos acolhedores. E são dois, e são um só. Modelo da própria perfeição, do cegar dos sentidos, do pestanejar que transforma chuva em pingos de sol. 

Apolo e Adônis. Esses dois homens que eu amo, inatingíveis que são.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Por um abraço (2011)


Não, esse texto não é pra você! Se parecer que é, ignore. Se faça de morto! Mude de blog! Qualquer coincidência é mera semelhança.
Do que essa louca maníaca está falando? De amigos!

Parei pra pensar, dia desses, por que as pessoas nos fazem tanta falta. E fazem! Uma falta incrível. Relações humanas são prolixas, concordo. Valorizamos o contato até as últimas consequências. Alguns de nós, ao menos. Chego a me doer quando não consigo teclar com alguém de quem gosto ou quando ninguém responde um post. Sim, você leu certo. Teclar. Post.

Descobri recentemente (mentira, eu já sabia) que meus melhores-grandes-necessários amigos são avatares inertes na claridade da máquina. Descobri que falo através das pontas dos dedos. Sou viciada em Internet? Não. Sou solitária. Sou aquela que não estabelece relacionamentos reais por pura falta de gente por perto. Aquela que toma para si os amigos da cara-metade e, quando a metade vai embora, tem-se que ajeitar amigos novos. Exagero, claro! Se não fosse exagerado, esse texto seria de outra pessoa.

Mas, o fato é que tenho descoberto pessoas tão geniais, tão interessantes, tão melhores-amigas-do-mundo (peguei a mania do Moa de juntar palavras com hífens), que é difícil não fazer amizade. Pessoas que falam a minha língua, que se prestam a ler as minhas chorices, as lamúrias, os devaneios. E mentem bem pra agradar! Gente que ri de piadas idiotas e tem sempre um “bom dia” lá pelas três da tarde, ou às oito da madrugada, depende do caso! Um povo que deixa a gente se meter nas conversas, que responde qualquer bobagem, que está sempre lá. De uma forma ou de outra, eles estão sempre ao alcance. Sempre disponíveis. E não estão.

Até os conhecidos de fato, os que dividiram sorrisos reais, cervejas reais, até esses se virtualizam, pois não nos “vemos” fora da caixinha cheia de letras e links, que passa correndo de uma janela a outra, trazendo a sensação de que a sala está sempre cheia de gente. Até aqueles mais reais, que já foram reais até demais, até esses viram figurinhas extravagantes em um perfil. Viram frases terminadas com carinhas de dois pontos-parênteses.

Vozes mudas, risadas descritas em hordas de letras sequenciais. E nos pegamos sorrindo para a fotografia que no sorri. Nonsense. E nos pegamos desejando ardentemente vislumbrar um rosto real (que não venha em transmissões truncadas de webcam), implorando inutilmente por um mero abraço, um “Oi” falado fora da caixa de som, um silêncio presencial.

As distâncias ultrapassadas, as fronteiras derrubadas e nós aqui, mais sozinhos do que nunca, na companhia de uma conexão banda larga. Espero que ninguém deixe de “falar” comigo por causa desse texto! ;)

terça-feira, 22 de março de 2011

O Beijo do Vampiro

Eu tenho, em mim, a necessidade de pouco. E esse pouco pode representar tanto a quem convive comigo, que se torna impossível suprir ou compreender. Dizendo isso, estou desculpando o imperdoável. Deliberadamente.

Alguém que eu amo me disse “escrever é um sacerdócio, exige retidão, silêncio, calma, meditação, entrega absoluta”. Esse dar-se incondicional à dimensão das letras é o Beijo do Vampiro. O beijo que nos absorve, nos arrebata, nos faz perder a noção, nos faz gozar, nos suicida.

Esse que eu amo está certo, em parte. Não somos monges na clausura, não somos retos, não somos únicos. Pelo menos, eu não sou. E descubro na dor da realidade que devo escolher entre o mundo real e o mundo da literatura. Devo escolher entre o arrebatamento orgástico e o respeitar a individualidade do próximo.

Mas, pergunto, e quanto a minha individualidade? Devo mesmo resignar-me a abdicar da minha arte em prol do contento de alguém? Em prol do bem-estar do outro? Devo abrir mão de parte essencial de mim por quem deveria ser parte essencial de mim?

Um paradoxo, um dilema. Já não estou triste. A tristeza dá lugar a uma abrangência realista. Agora que a realidade começa a se parecer, a ter nuances do devaneio, é nessa hora que devo parar? Agora que começo a viver o que remoí nos sonhos por uma vida inteira... tenho de desistir ou conter-me para não incomodar?

Compreendo, pois, que terei de abrir mão de coisas caras, de alguéns. Se a minha literatura, o meu jeito de ser mais feliz, desconforta, resta a mim desculpar-me pelos atos imperdoáveis da criação (a minha). Resta a mim dizer adeus.

Devo, assim, abrir mão da vida regrada e normal e comum e cotidiana. Devo jogar-me nos braços do desconhecido e esse desconhecido se parece tanto comigo. Devo abraçar a mim mesma e deixar partir o que (e quem) me é caro para que a arte sobreviva em mim. Ou devo abrir mão da arte, essa que me acompanha no íntimo, que me apaixona e se apaixona por mim. E devo dizer-lhe adeus sorrindo, como se fosse fácil esse exterminar-se intelectual. Dizer adeus a mim ou ao outro, não importa. Só sei que devo.

Paradoxo...

sexta-feira, 4 de março de 2011

Alma Vampira


Se pelos lados obscuros de cada alma pairasse uma sombra solene, andando sorrateira e entremeando soleiras escusas, dir-se-ia que uma e todas essas almas sofrem de um misterioso mal. Eu vos digo, entretanto, que o mal referido não temais. Posto que é o pulsar do vampiro, que espreita a mente e se derrama aos olhos. Virtude da morte que arde ao vislumbrar a caça, tórrido entorpecer dos sentidos. És, pois, vampiro, o pouco solene que permeia a mim. Parte de meu saber noturno, todo do escuro que perpassa meu ser. E se vós também sofreis da doce dor da falência da carne, se tendes dentro de vós a frieza do gelo da eternidade, erguei do túmulo dos dias esse vosso corpo cansado e vagai pela noite, pois sois também como eu. Um vampiro em busca do sangue, calma criatura dos séculos, que busca o prazer das luzes sem retirar o coração do breu. 

Amor e Morte


Peço licença pra divagar também.
Quem de vocês já não sentiu aquele calafrio desavisado, aquele choque elétrico que acontece bem na boca do estômago e deixa você impotente, de pernas bambas e respiração entrecortada? E quem de vocês não sabe que isso se chama paixão?
Pois, absurdo dos absurdos, o mesmo sentimento que esquenta, que alucina, que palpita, que deixa as bochechas vermelhas e os olhos molhados, aquele que faz tremer e suar as mãos, trava o raciocínio e coloca a todos nós, ingênuos mortais, em estado de graça... esse sentimento mesmo também nos é o causador de uma morte fria, dolorida, inevitável.
Triste é a existência do apaixonado, que se consome solitário em devaneios seguidos de desejo, que beija o travesseiro e sente os próprios dedos como se fossem os do alvo de seus quereres. Pobres tolos apaixonados, derramando-se em deleite por um objeto sagrado, intocável por sua simples ignorância, desconhecido e idealizado a cada segundo.
Atirem a primeira flecha aqueles que nunca acordaram, ofegantes e suados, sobressaltados, de um sonho lívido, aveludado, erótico. Aqueles que nunca perderam horas do dia em diálogos mentais melodramáticos. Que, ao fechar os olhos, não tinham um rosto impresso na mente, um cheiro, um gosto imaginário.
Quem nunca se perdeu em lamentos, morrendo a cada minuto ao deparar-se com a realidade crua? Quem não atirou juras ao vento, sentindo o coração sangrar e o desejo a consumir cada víscera? Quem não sucumbiu, por uma vez que seja, nessa febre gelada, esfomeada, mortal?
A esses, que não sabem do que falo, minhas saudações. Jamais morreram, jamais amaram.
Aos que sabem, meu eterno pesar e minha simpatia. Pois que tais almas sofrem do mesmo mal que eu. E morrem-se em si mesmas a todo instante, apaixonadas que são.

Frêmito


Antes...
O sol a escorrer pela curva dos seios. O corpo trêmulo de desejo e ânsia. Fogo e gelo a lamber os poros. Choques elétricos ao abraço do vento. Leves teias pairando diante dos olhos. O torpor da mente e o latejar da alma. Cálido esperar pela chuva, reconfortante arrebatamento. O evaporar das marés, o pulsar da terra.

Durante...
Terremotos rugindo trovoadas subterrâneas. O sangue fervendo nas veias, nas têmporas. O aço que sustenta a vida e a vida escoando tal qual lava. O rasgar do tempo, o desnudar do ventre. Suor vertendo em pecado, derramando bênçãos. Deleite de leitos rasos varridos por tempestade. Eletricidade, explosão.

Depois...
Silêncios sonolentos de ouvidos mudos. Uma delicada aridez, quase glacial. A pele úmida, arfante. Aroma das noites de outono. Unhas e cabelos dormentes. A consciência que vagueia, bêbada, em direção ao lençol de luar. Sorriso com gosto de sal. Êxtase sonâmbulo no limiar do desfalecimento. Ausência.

Amante


Eu ouço você dizer que me deseja, como me deseja, o quanto me deseja. Eu vejo você repetir que me ama, de que maneira me ama, e por quanto tempo ainda vai me amar... Mas será que você está pronto pra mim? Pronto pra ser o que eu preciso que você seja? E eu preciso muito de tanto...
Você tem medo? Eu também tenho. Tenho medo de te medo de perder você. Tenho medo de ter medo de querer você. Tenho medo de mim mesma. Será que você está preparado, ou mesmo disposto, a ser realmente meu? Você vai estar preparado quando eu exigir que você me dê tudo aquilo que o mundo não me dá? Vai ao menos tentar?
O que eu quero não é muito, mas é tudo. Quero alguém que me veja inteira. Não um par de peitos, não um cérebro pensante, não uma fonte de alimentação ou de alucinação. Quero alguém que me permita ser burra, ser feia, ser nada. Quero alguém que me engula e que me saboreie. Quero alguém que me inspire e que me cale. Quero alguém que me assuste e me acalente. Quero alguém que devore o meu corpo como devora minhas frases. Quero alguém para ouvir, quero alguém para silenciar. Você pode?
E quando você me tocar, que me permita fugir, me permita tremer, me permita ser frágil. E quando você me tocar, que me toque a alma. E quando você me tocar, que deixe que eu me entregue, que deixe que eu o possua. Quando você me tocar, que seja único a cada momento, que seja eterno. Você consegue?
Nos seus olhos, eu quero ver o desejo, eu quero ver a luxúria, eu quero ver vaidade, quero ver dor. Nos seus olhos, eu quero ver minha cura, minha malícia, quero ver a mim mesma. Quero ver o que você vê. Você deixa?
Nas palavras, quero verdades. Nas palavras, quero sapiência. Nas palavras, quero ter voz. Voz própria, e que você a escute, a compreenda. Quero poder gritar, quero sussurrar, quero murmúrios e quero lamentos. Quero apenas dizer bobagens, dizer nada. E quero atenção. Você me dá?
Quero morrer nos seus braços a cada orgasmo. Quero renascer no seu beijo, a cada encontro. Quero amar a mim mesma, quero amar você. Quero ter poder sobre você, quero mandar e ser obedecida. Quero um escravo que me escravize. Quero alguém que olhe apenas para mim. Quero ser o centro do seu universo, e todos os planetas e sóis. Quero apenas deitar a cabeça em seu ombro, quero ganhar colo, quero um cafuné. Você faz?
Quero ser o livro ainda não lido, a sinfonia não executada, a peça inédita. E quero tudo isso a cada beijo. De novo e de novo até que eu me canse e deixe você me ler até me decorar, me ouvir até me executar, me assistir até me interpretar. Você entende?
É pedir demais? Desculpe. Também quero alguém que me perdoe e a quem eu possa perdoar, sempre. Alguém que mereça o meu perdão. Alguém que não se importe com meus erros, e que erre apenas por mim. Alguém que me espere e que conte os segundos se eu me atrasar. Quero alguém para esperar, alguém com quem sonhar.
Se esse é você, então me beija...