sábado, 30 de abril de 2011

A Luta


Depressãozinha batendo leve. Chegando como a chuva fininha que cai lá fora nesse fim de tarde que não é verão nem outono. Não é tristeza, não é fossa, não é ausência. É aquela velha sensação de acabar. A sensação de cansaço, de ciclo repetido, de velhice precoce, de enfado. Os dias seguindo em frente e eu a me repetir sempre. Sempre na busca daquele algo que não acontece, que não desabrocha, que não vive. 

O engraçado de tudo é que, dia desses, estava eu dando conselhos incentivadores a um amigo que sofria dessa mesma depressão. Um jovem, com todas as forças em dia, com todo o talento debaixo da pele. Dizia eu “espera, isso passa”. Dizia eu “calma, você vai conseguir”. Agora não sei se fui honesta. Deveria dizer-lhe “desiste, não há chance pra gente como nós”. Deveria dizer-lhe “busca outra coisa mais branda, larga o sonho, que esse sonho dói”.

Esse sonho é mágoa latejante, pronta para ser chorada a qualquer canto. E tanto o sonhamos, por tanto tempo, que ele gasta. Torna-se pesadelo recorrente, vício. A luta que se luta por anos sem vitória acaba virando prisão, tormenta, depressão. Batalhas suadas para o mesmo fim. E no fim, nada. Aprontem-se para a batalha, novamente.

Um dia, isso cansa. E quando se torna cansaço, perde o viço, perde o brilho. E só continuamos lutando porque não sabemos fazer mais nada. O gosto acaba, a cor desbota. Triste sonho lutado que não vinga jamais. E só seguimos sonhando pelo medo de morrer sem sonhos.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

À Distância

Ela nas teclas, ele no monitor. Ela correndo dedos e estalando cliques, derrubando palavras inspiradas em textos métricos. Ele a tecer comentários cáusticos, afogueados, sobre tudo quanto lia. Ela a escrever, ele a palpitar. O blog se enchendo a cada dia de torrentes de pensamentos e pedaços de emoção. Cada um de um lado da conexão, a experimentar o imaginário do outro. Ela esperava por ele depois da cada post. Ele esperava por ela depois de cada ponto final. E o mais incrível é que ela sabia, ele não. Ele nem desconfiava, sequer de uma mínima migalha daquela verdade. A verdade era só dela. Ele apenas apreciava, compartilhava, comentava. Ele interagia com o texto. Ela interagia com ele. Ingênuo, ele jamais perceberia que tudo aquilo, toda a mescla de sentimentos e inteligência de que gostava tanto, ela criava para ele.

domingo, 24 de abril de 2011

Gozo


Energia frenética, força que move as terras, brasa que aquece o sol. Tua pele recendendo a almíscar, canela, jasmim. Tua pele vertendo orvalho. Suor perfumado, gostas de sal. E aquele arrepiar que transcende os pêlos, eriça os poros, derrama êxtase. Enquanto cada músculo se empenha em salientar-se mais. Seiva e viço. 

Ombros rígidos, costas arqueadas, dedos crispados em mãos tensas. Pernas vigorosas embalando coxas úmidas pelo mesmo sal. Teu corpo inteiro pulsa ao ritmo do girar do mundo. Coração descompassado retumbando nas têmporas. Fogo a correr nas veias, incendiando a serpente que acorda e desabrocha, se insinuando sedenta em direção ao céu. Sangue e curvas. Frenesi.

Tua sensualidade embriaga, emudece. Teu serpentear inebria, desrespeita. Teu peito arfante impõe o ritmo da dança das eras. Teu hálito escapando dos lábios é veneno, é antídoto, entorpecente. Teus olhos fechados sonham todos os desejos não ditos. Agonia. Tua voz ronronando um gemido inaudível, rouca e arrebatada, é o puro sopro de Deus. Volúpia.

Tua boca – ah, essa tua boca! – displicente, de lábios mordendo dentes, é poço arrebatador de almas. Tua boca que se abre mais, no grito contido, sufocado. O gemer virando rugido, o bailar do corpo a errar os passos, a estremecer. As mãos agarrando mais forte, o coração quase a explodir. 

É quando me vejo em teus olhos de repente abertos. Olhos vidrados, sem nada ver. Olhos brilhando além das dimensões. É quando tudo se torna vertigem. É o desfalecer dos sentidos, o frear do tempo, o inexistir. Fractal do universo. Luxuria, libido, orgasmo. Vida e morte. Tudo em ti. E nada mais há, só teu cheiro, teu gosto, teu gozo.

Encantamento


Triste essa loucura dos enamorados de entregar o coração sem fronteiras. Incompreensível mesmo tal procura pelo doer-se. Insanos, na real estrutura da palavra, buscando pela tortura desmedida a que se costuma chamar paixão.

Digo e repito, não os concebo, os apaixonados, destilando exageros românticos por todos os poros. Seres lamentosos e rastejantes, carpideiras em eterno funeral. Enamorados sofrem de ilusão crônica, acredito eu, entregues que estão ao encantamento maquiavélico do amor. Tolos, é como os penso. E por esse pensar já me disseram “não sabes amar”. E eu ri, debochada, diabólica. Mas a verdade, a vergonhosa verdade, é que sei... e dói.

Triste essa loucura dos enamorados que, como eu, resplandecem ao sorriso alheio. Ao teu sorriso, tão alheio. Triste de mim que sofro de amores sem sequer poder dizer teu nome. Triste coração piegas, derramando exageros românticos, silenciosos, lacrimais. E tu, tão inocente, não sabes nem suspeitas de minhas dores por ti. 

Como posso eu, então, desfazer dos enamorados, se te anseio tanto que não ouso dizer-te? Como não alucinar nessa demência que é minha paixão por ti? Esse lamentar calmo e sem voz, sem nome a decifrar-te o rosto. Esse rosto de olhos castanhos que me olham de longe e me sorriem sem saber. Como saber? 

Nada direi e não saberás sobre essa triste loucura sem fronteiras, essa ilusão crônica. Escolho querer-te em segredo. Prefiro o calar dolorido, a insanidade e a tortura de guardar esse “eu te amo” só para mim.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Controvérsias em Mim


Tenho controvérsias em mim. Alguém não tem? Me apanho contradizendo a mim. Logo a mim, que sei tudo. Mas, eu me rebato. E percebo que eu tenho razão às vezes. Em outras, perco a disputa e vejo que estava certa desde o início. Conversa de louco?

Cada vez que me deparo com qualquer regra, recuo, tomo fôlego, olho feio e bato de frente. Normalmente dói. Tanto faz se a regra é minha ou alheia. Não gosto de regras. Me reinvento sozinha, sem manuais. Entretanto, cada nova EU vem com um conjunto novo de regras que a antiga EU se empenhou em ignorar, ultrapassar, rebater. Isso, sim, é conversa de louco!

Estranho mesmo é quando se percebe que as novas regras não são tão novas. Que já fizeram parte do quadro e que foram riscadas, eliminadas, uma a uma, algum tempo atrás. Se estão de volta, repaginadas, são o quê? São novas? Não foram estraçalhadas o suficiente? Regras-zumbis erguendo-se das sepulturas. Regras-fênix surgindo das próprias cinzas. Minhas cinzas?

E é nesse momento que a gente se dá conta de que a vida é o tal eterno voltar. E volta mesmo. Nos percebemos em situações que já vivemos – antes – e que juramos jamais repassar. Mas, estamos aqui, vivendo e revivendo batalhas já lutadas. O que muda é a arena e a idade do gladiador. Falo do peso do tempo, que deveria fazer-nos mais fortes, mais sábios. No meu caso em particular, a sapiência perde terreno para o ímpeto da transgressão. São as mesmas regras, afinal. E eu ainda odeio manuais!

domingo, 3 de abril de 2011

A Boca


A boca daquela criatura era de tal forma perfeita, que palavra não havia que a descrevesse por completo. Puro deleite dos deuses aqueles lábios desenhados a sangue. Cada ranhura de pele que formava sulcos finos e ressecados que formavam veios que sumiam numa curva repentina. E lá vinha a língua umedecer as ranhuras, umedecer meus sentidos.

Ah, aquela boca reta, de ângulos duros. A depressão do segredo dos anjos a dividir a linha superior num arremedo de coração. A generosa porção rósea que se avolumava logo abaixo, quase não cabendo em si de voluptuosidade. O tal suculento lábio inferior.

Beijar aquela boca, meu Deus, se pudesse. E nem quisera tanto, apenas mirá-la assim de tão perto. Permitir-me, quem sabe, tocá-la delicadamente, quase sem tocar, com as pontas dos dedos, aquela boca de sonho. Sonho com ela. Aquela boca perfeita.

Como é possível uma simples boca abalar-me tanto? Ah, mas eu bem sei. É que não é uma boca simples. É complexa, generosa, idealizada. Idealizo minha língua naquela língua, minha pobre boca naquela boca maravilhosa. Quem dera! Serão tão doces aqueles lábios quase rubros, quase pálidos, quase febre? Será real toda aquela perfeição, ou só existirá no devanear de minha mente desejosa?

Por vezes, se cobre com a mão que surge para abreviar o sorriso, o repuxar dos lábios, o revelar dos dentes, das gengivas, das salivas. Por vezes, curva-se como que para o choro, faz beicinho, aperta-se entre dentes, mordisca-se. Tudo para arrancar de mim abalos suspirosos de irreversível arrebatar.

Ah, aquela boca. Minha fosse, talvez não suportasse. E morreria meu coração emotivo no ínfimo vislumbre do beijo jamais dado. Morreria para beijar-lhe, aquela boca feita de perfeição.

sábado, 2 de abril de 2011

O Homem de Saias e a Mulher de Barbas

O homem deu um passo incerto na direção da mulher que estava de costas. O pé ensapatado afundou na areia branca e fina. Ele pigarreou na tentativa de chamar a atenção dela sem assustá-la. Ela se voltou e quem se assustou foi ele. Manteve a postura, ensaiando um sorriso simpático e discreto.
– Com licença, moça. A senhorita sabe onde estamos?
Ela franziu o cenho levemente, parecia irritada e sua voz não disfarçava isso.
– Onde acha que estamos?
“Uma pergunta com outra pergunta” – pensou ele.
– Me desculpe – disse ele.
– Pelo quê?
– Por perguntar.
Eles se encararam naquela luz quase alaranjada, quase ouro, do quase pôr-do-sol que quase se refletia na água mansa.
– O que está olhando?
Ela estava ainda mais irritada.
– Desculpe outra vez – ele estava ficando confuso com aquela grosseria. – É que nunca tinha visto uma jovem de barbas negras como as suas.
A mulher correu os olhos por ele, desdenhosa.
– Poderia dizer o mesmo de suas vestes. Paletó, gravata, sapatos de couro e saias rodadas? Ótima combinação.
Ele quis responder ao gracejo esquisito, mas, sem querer, olhou-se. Estava mesmo de saias escuras como o paletó. Pensou em tirá-las. Não podia. Estava nu por baixo.
– Que brincadeira é essa? Quem me vestiu assim? Onde estamos? Quem é você? Que lugar louco é esse, afinal?
Ela ficou em silêncio, fitando-o. Quando o pânico do homem arrefeceu, ele ouviu a voz dela. Contudo, as palavras não existiam a não ser em sua mente. Era como se ele próprio as pensasse. E pensava. Olharam-se, imóveis.
– Estou tentando lembrar como cheguei aqui – disse ele em voz alta. – Não consigo refazer meus passos. Se você puder me ajudar, moça de barbas, eu agradeceria.
– Se você não sabe, eu não posso lhe dizer. Também não sei quem sou, o que sou ou o que faço aqui. Nem sei o que é aqui. Olhe ao redor, você reconhece algo?
Ele girou lentamente. A praia paradisíaca, a areia imaculada, o oceano esverdeado e sem ondas. Um lugar tão incrível sob aquela luz de fim de tarde, que o homem de saias sentiu-se relaxar.
– Bem, não é tão ruim, por certo.
– Não é ruim? É de enlouquecer. Por quanto tempo você aguentaria ficar num lugar que não se move?
– O que há de errado com este recanto, moça de barbas?
– Preste atenção, senhor de saias. Está ouvindo algum som além de nossas vozes? Está sentindo o vento, qualquer brisa que seja? Já reparou que o mar não se move, que é mais calmo que qualquer poça de chuva? Estou aqui há muitas horas, eu creio, e o sol não saiu do lugar.
O homem prestou atenção. Ela estava certa. Era como se habitassem uma pintura. Ele adiantou-se, afundando os sapatos na areia. Curvou os joelhos e estendeu a mão, tocando a água com as pontas dos dedos. Fria e molhada. Provou. Sal.
– Isso... é uma espécie de céu? Morremos?
Ela parou ao lado dele.
– Não sei. Não acho que o céu nos enlouqueceria. Talvez, o purgatório.
– O purgatório é ruim, é feio. Aqui é lindo demais.
– Lindo, mas é um nada. Um nada parado no tempo. E se é nada, é limbo – ela fez uma pausa. – Acho que morremos, sim, e estamos onde seremos julgados.
– E onde estão os juízes?
– Bom... Estamos aqui, você e eu. E eu não sei quem é você.
– Muito bem, me conte seus pecados, moça.
– Por que você não começa?
O homem de saias riu.
– Eu não tenho nada para confessar. Nada fiz para me arrepender.
Ela arregalou os olhos.
– Então, talvez eu deva julgá-lo por sua arrogância, prepotência, narcisismo. Como pode alguém não ter pecados? Só os recém-nascidos são inocentes.
– E você, que maldades tamanhas fez na vida?
A mulher de barbas baixou os olhos.
– Fiz muito mal. Ofendi pessoas, magoei, gritei e disse desaforos impensados. Explodi como uma panela de pressão e não deixei pedra sobre pedra nos corações daqueles que me amavam. Fiz isso inúmeras vezes. Fui um monstro sem coração.
– E se arrependeu?
– Sim, imediatamente. Todas as vezes. Fiquei com vergonha, com remorso, culpa.
– Pediu desculpas?
– A todos os que permitiram... sim. Aos outros, perdoei pela falta de perdão. Eles estavam certos, não eu.
– Nunca?
– Mesmo que eu tivesse razão, perdi-a quando gritei. Todas as vezes.
– Mudaria, se pudesse?
– Não conseguiria – ela deu de ombros. – Mas, agora que morri, que importa? Sua vez, senhor.
– Já lhe disse, não tenho pecados. Trabalhei, construí, procriei. Nunca gritei, nunca bati, nunca desobedeci, nunca conflitei, nunca explodi como panela de pressão. Sempre sorri, sempre aceitei, sempre engoli cada mágoa, cada tapa, cada insulto. E nunca me redimi de nada. Não havia coisas para me desculpar.
– Você nunca viveu.
O homem a encarou.
– E você viveu demais.
Silêncio.
– Somos opostos – disse ela. – Você fez o que eu deveria ter feito muitas vezes.
– Somos idênticos – disse ele. – Você agiu como eu gostaria, se tivesse coragem.
Calaram por um segundo mais.
– Engraçado – ele sorriu , não sabia que se podia passar a vida na passividade, como eu.
– E nem eu que se pudesse passá-la na agressividade, como eu.
– Mas, você se arrependeu, moça. Se arrependeu de coração. Não tem pecados.
– E você? Se arrepende? De não ter sido nada? Sentido nada?
– Sim, com certeza – ele sorriu outra vez. – todas as vezes, a cada segundo. Mas, julguei estar fazendo o bem.
Mais silêncio. Olhos nos olhos.
“Somos o bem e o mal” – pensaram juntos, e se ouviram.
– Você tem o meu olhar – disse ele.
– E você o meu – ela respondeu.
– Você usa a barba que eu usava.
– E você minha saia predileta, eu já havia notado.
Mediram-se uma última vez. Ela estendeu as mãos.
– Você me perdoa?
Ele tomou as mãos dela.
– Se você me perdoar.
De imediato, os corpos da mulher de barbas e do homem de saias tremeram e se tornaram LUZ. E daquela luz, um único corpo se fez. Já não importava se macho ou fêmea. O perdão fora dado pelo único juiz que existe. Ele/Ela estava livre. A praia ficou deserta, as ondas quebraram na areia e o sol finalmente se pôs.