domingo, 22 de maio de 2011

Céu Acinzentado


A brisa faz sentir minha pele
Acariciada e fina
Preciso ser tocada por mãos humanas
Ou será que o vento me basta?...
O toque sutil de mãos masculinas
Ao mesmo tempo ásperas e possessivas
Vem trazer ao meu corpo
A sensação do temporal
Ríspido e mágico na ventania das almas
Brandindo seu sussurro ensurdecedor
Que tem o som de mil silêncios
A gritarem ao meu redor
E eu me sinto limpa
Purificada pelo seu cheiro
Impregnada com suas macias mãos de chuva
Como o gelo que esquenta os corpos
Nas noites frias do calor do outono
Deitada num leito de sombras e sussurros
Que se faz em cores e gritos de prazer
Gritos histéricos que atordoam
E se fazem suaves como Choppin
O som de pianos sem as teclas
Harpas e flautas sem dedos que as vão tocar
Violinos sem cordas ou arcos
Que arqueados no caos
Hão de fazer-me viver
A plenitude do prazer da vida
Incolor e antitérmica
Pelo apogeu dos mistérios do meu ser

Num Sonho

Hoje sonhei contigo. E nesse sonho não eras meu, não me pertencias. Ao contrário, eu é que me tornava parte de ti. Um átomo a girar. E tu, um gigante etéreo, maior que o mundo, maior que o meu mundo. Eras sublime e a ti reverenciavam os astros do firmamento. Eras eterno, o mais belo dos deuses.

Em meu sonho, te vi como nunca antes, te vi com os olhos da eternidade. E eras tudo. Homem, deus, anjo, sol. E pelos meus novos olhos de sonho, te vi essência, mais que fogo, mais que ar. E vi teus olhos nos meus olhos de espírito. Meigos, sérios. E me vias inteira, sem sombras, sem dogmas. Despida de tudo, como uma oferenda a ti.

Foi quando percebi que não sonhava contigo. Era meu coração quem te observava de longe. E eras outra vez meu menino mais bonito, tão jovem quanto a imortalidade dos séculos, tão mágico quanto a profusão de estrelas que agora brilham ao teu redor.

Se despertei desse sonho, não sei dizer. Tudo o que sei é que permaneces comigo, célula por célula, entranhado na alma, até o próximo adormecer.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Respeito


Tenho um defeito crônico. Uma mania reincidente que insiste em não me abandonar. Já sei dela há tempos, mas o que fazer?... O fato é que – não riam – eu respeito demais aqueles que eu desejo! É, bem assim, respeito demais. Muito mais do que qualquer um deles mereceria. Meus amigos mais antigos sabem bem do que eu estou falando. Tantos amores silenciosos, tanta platonicidade desnecessária. E por quê? Porque eu considerava cada um deles algo especial, digno de ser preservado.

Não me levem a sério. Eu mesma não me levo. Vontade de apontar o dedo ao espelho e gargalhar dessa minha cara de pastel! Exagero? Pior que não. Porque acabou de acontecer outra vez. Fico aqui me doendo para não agredir, para não ultrapassar limites, para não ser assustadora ou provocar demais. E para quê? Para ver chegar uma ilustre desconhecida e dizer, assim, a plenos pulmões, tudo aquilo que eu queria dizer e guardo a sete chaves por puro... respeito. E o pior é que eles adoram! Derretem-se imediatamente, aqueles seres patéticos.

Não que cada um deles não valesse o elogio. Valiam! O problema é que a paixão me deixa introspectiva. Tendo a pensar em vez de agir, de falar. E quando alguém chega e grita cada um dos tesouros preciosos que aconchego dentro do peito, me dá uma vontade de mergulhar na privada e puxar a descarga... Ainda sou imbecil a ponto de repetir o mesmo erro. Venho fazendo isso nas últimas duas décadas. E vivo dizendo “da próxima vez, vai lá e diz pra ele”. Mas não digo. E quando vejo, tem alguém fazendo cócegas no ego do alvo do meu respeito.

Estou tão errada assim? Tão fora de moda? É errado resguardar alguém que você ama? É errado querer proteger essa pessoa de você mesmo, de seus arroubos? A resposta é: sim, tudo errado! Porque sempre vai chegar alguém e ganhar aquele beijo, aquele sorriso, aquela atenção – e tudo mais que isso possa implicar – que eram para ser só seus.

Conselho: quanto mais respeitadores formos, menos beijos ganharemos. Soa mal? Acredite, é bem pior de sentir. Deu, está dito! Espero que você tenha entendido!

terça-feira, 17 de maio de 2011

Acalanto


Te tomaria em meus braços, sim. E te ver dormir seria o ápice de meu dia carregado. Te fazer dormir seria te velar no sono. Seria te ter indefeso, cuidado, protegido, meu. Te ver adormecer seria o maior dos tesouros. E, sim, velaria teu repouso, como quem guarda uma joia rara, uma sentinela sem descanso. E seria a testemunha de cada vez que teu peito buscasse o ar e se elevasse e descesse. Velaria eu o teu sono, criança, e te embalaria no doce acalanto que nasce de minha alma ao pensar em ti. Doce menino, alma de anjo. Quisera eu embalar teu corpo. Deixar morrer o desejo de brincar...

A voz de um Anjo (2)

Outra vez, acreditem, ouvi a voz de um anjo. Duas vezes no mesmo dia! Eu poderia afirmar que estou ficando louca. Mas é a mais pura realidade. E esse anjo que me falou agora, antes do sono, era diferente. Um anjo sexy, aquela voz que faz cócegas no ouvido. Uma voz ronronada, como um felino se espreguiçando. E me disse coisas reais, nada de devaneios. E me disse o que eu precisava ouvir. Um “Eu amo você” sonoro, inebriante. Dormirei com os anjos essa noite, com certeza. Também te amo, anjo sem asas. Não sei porque, mas te amo. E essa é a mais absoluta verdade!

segunda-feira, 16 de maio de 2011

A Voz de um Anjo


Hoje ouvi a voz de um anjo. Parece brincadeira, desvario. Mas, juro. Ele estava mesmo falando comigo. Não sei dizer se sonhei, se alucinei, se morri um pouco e voltei. Só sei que ele estava lá. A voz dele estava. Não era um anjo comum, daqueles com auréolas douradas e harpas nas mãos. Era real. E ele falava e eu esperava ouvir um riso. Contudo, ele não ria. Sorria, talvez, brincando comigo. Mas o anjo estava abatido, sonolento. Acho que acabara de descer de uma nuvem, ou ainda não tinha fechado os olhos, atarefado que estava contando estrelas. E sua voz abafada veio flutuando e dizendo tantas histórias, tantas palavras soltas. Quando o anjo falou comigo, eu ouvi. Acho que ele me ouviu também. E não pediu segredo, só contou segredos. Não era um anjo como os outros, era humano, era mais que um homem. Um anjo distante, que me deixou ouvir sua voz e fez meu dia brilhar mais. E me deixou um pouco triste quando se foi. Mas o anjo estava cansado. Precisava fumar um cigarro e ir sonhar.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

O Tempo


O tempo cura tudo. O tempo lava a alma de velhas feridas. O tempo turva qualquer imagem. As marcas mais profundas, as tatuagens perpétuas, tudo esmaece diante do tempo. E quanto tempo é preciso para apagar uma pessoa? Quanto seria necessário para tornar um sentimento em nada?

Divago olhando imagens, essas agora tão disponíveis, e encontro rostos que já tiveram tanta importância. Hoje, depois do tempo, são apenas rostos. Alguns até meros desconhecidos. Não pela ação implacável dos anos, mas pelo desgaste imperceptível do tempo. Esse tempo que transforma febres em brisas, que transforma paixões em retratos desbotados. 

E esses rostos que me encaram imóveis, imutáveis, já não guardam com eles qualquer fagulha de importância, qualquer mera sombra de emoção. O tempo determina a duração do que é sagrado. O tempo apaga qualquer cicatriz. O tempo cura tudo.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

O Vazio e o Verbo


No princípio, ele se sentiu como Deus. Tudo era verbo e falar era possível. Ninguém mais para terminar as frases por ele. Ninguém a interromper seus raciocínios como se já os soubesse de antemão. Ninguém a criticar comentários ou a ignorar opiniões. Estava livre, podia falar sozinho o quanto quisesse. Finalmente!

No segundo dia, ele cantarolou pelos espaços que se preenchiam, como se criasse terras e dividisse mares. Cantou desafinado, errado, entoou hinos dos times que nem gostava. O sorriso aberto enquanto móveis e tapetes e almofadas surgiam no novo mundo. E ele viu, satisfeito, que aquilo era bom.

Depois do ato de criação, sentou-se entre outros deuses como ele, todos falastrões e sorridentes. E a conversa se estendeu por horas e copos a fio. Ao fim da noite, nem a língua nem o cérebro conseguiam formular mais nada minimamente coerente. Assim terminou o terceiro dia.

Após a ressaca, sentou-se confortavelmente em seu trono-poltrona, de cuecas, com o controle-remoto na mão. O cetro dourado repleto de botões e de canais era todo seu. Xingou cada cena e cada frase da odiosa novela. Assistiu o capítulo todo só para poder insultar, gargalhando a cada impropério. Pulou aleatoriamente de programa em programa. Feliz da vida porque voz nenhuma o mandava sair dali. Ele era seu próprio rei. Terminou roncando na poltrona, com o pescoço torto. 

Passou assim aquele princípio, aquela semana. Ao final de tudo, calou-se. Não cantarolou, não praguejou, não arrotou alto e até tomou banho e vestiu cuecas limpas por sua própria opção. Não ligou a televisão, nada havia para ver que lhe valesse o esforço. Ficou quieto no sétimo dia, e não achou nada bom. O silêncio oprimia, deprimia. Chegou a sentir certa falta das interrupções de frases, das retaliações, das ordens atiradas à face. 

Pegou o telefone, discou, esperou. Ensaiava em pensamento. Diria que só ligava para saber como estava ela, as crianças, o cachorro. Se precisavam de algo. Era mentira. Tinha saudades da voz dela. Quando ninguém atendeu, ele ficou infeliz. A sala tranquila, a quietude a pairar por seu reino particular. Que tédio aquilo, não ter com quem conversar.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Platônicos

Não preciso de nada mais de ti. Só de tua existência. O ato de estares me basta. Não quero te ver todos os dias de todas as horas de todos os tempos. Só quero saber que estás por perto. No mundo. Não quero que me vejas, prefiro continuar invisível. Não tento te alcançar, não te toco. Não sei mesmo como é o timbre da tua voz. Não quero te ouvir, não quero que me ouças. 

Quero ser apenas a sombra que vela teus passos. Quero te amar a distância. Te dedicar cada um dos meus pensamentos eternos, fugazes, aleatórios. Meus versos, meus cânticos. Quero só pensar em ti e te idealizar. Deixa ser, sem saber, essa paixão imutável que me corrompe. Que me torna melhor, menos má.

E te quero assim, distante, porque não nos foi dado sermos iguais. E amores platônicos só dão certo na igualdade, no espelho. E se és assim tão diferente de mim, é porque não seremos um par. Meu destino e o teu não se cruzam. Nossas mãos jamais se entrelaçarão.

Se tudo fosse real, seria pior. Pois eu não aguentaria te ter e deixar de te ter. Prefiro, então, não te ter nunca. Só assim, tatuado na alma. Entendes?

domingo, 1 de maio de 2011

Regozijo dos Tempos


O tempo de armazenar passou. Passou por nós como flecha atirada à caça, que raspa a árvore indefesa e dispara rente o coração da corsa. Sangue e morte louvam o tempo que passou. Época da colheita, de dançar entre fogueiras de volúpia, de deitar a seiva à terra e garantir o sustento da semente. Época de embalar bebês ao som dos bardos e suas harpas, das antigas canções dos heróis.

O tempo de resguardar já passou. Passou como água de córrego rumando ao supremo oceano. Passou como nuvem ao vento antes da tempestade. Já é hora de retornar ao lar, acender lareira e deitar oferendas a Héstia. Tempo de recolher as crianças, juntar o feno, aconchegar-se diante do fogo para ouvir as histórias dos velhos.

É o tempo que passa fácil, dia a cada dia, noite através de noite. E o tempo vai passando, deleite dos séculos, vida e morte, renascimento.