quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Silêncio


O silêncio diz tudo. A quietude que calmamente se espalha pelas bocas e ouvidos fatigados. Algo cala fundo, fala alto sem favorecer palavras. O verbo da criação é dispensável! Mentira velada é verdade resguardada. Segredos calados não fazem mal.

Poço profundo esse do silêncio que permeia os corpos, os espíritos, os lençóis. Desse que não se pode citar em voz alta. Desse que só os olhares discorrem. E escorre esse emudecer, inundando a alma, a cama. Inundando a boca. Quantas bocas transbordam nesse não-falar?

Sejamos claros, cada silêncio vale uma virtude. Cada possível virtude que se perde naquele anteceder do sigilo. E todos os pecados berram, satisfeitos, dentro daquele silenciar...

sábado, 20 de agosto de 2011

Já Chega


Chega!

Chega a hora de tomar um rumo, de dar um jeito, de puxar as rédeas. Já chega! Chega de lamentar as tentativas frustradas. Chega de tentar. Chega de olhar o horizonte com aquele sorriso besta de quem vai quebrar a cara outra vez.

Chega!

Chega-se a um limite. E há limite para quase tudo na vida. Se há começo, há de haver final. Chega-se a pensar que não há. Já chega! Chega de procurar a saída do labirinto, o fundo do abismo, ou do copo. Chega o momento da libertação.

Chega!

Chega de enrolar a lã no novelo dos dias. Chega de esperar a solução. Chega de lutar, de bater contra o muro. Chega-se ao final da jornada quando se decide parar de andar. Chega, enfim, o começo. Chega de esmolas, chega de memórias, chega de frio. Já chega!

Cheguei!

domingo, 14 de agosto de 2011

Concessões


Eu não mais farei concessões. Sejam quais forem. Sob qualquer pretexto. Não mais andarei sobre lâminas tensas por amabilidade ou proteção. Posto que essas reverências são impostas, não compartilhadas. Tampouco retribuídas. Eis a regra da contradição, do amargamento da boca. Eis o sentimento de furto, de engodo. Eis. Quando me dobro por ti e nada tenho em retorno.

A partir de agora, já não terei a piedade de ceder as tuas vontades. Não me interessam mais teus olhos de labrador, tuas necessidades sempre urgentes, teus mil compromissos inadiáveis. Já basta! A partir de agora, o que quiseres de mim, terás de me dar em troca. E como sei que és incapaz de tal façanha, exerço meu poder de barganha e te digo um sonoro “não”.

Sou má? Insensível, quem não diria? Pobre diabo, tão maltratado pela bruxa. Pobre de ti. É realmente uma lástima de homem, tão moralmente traído por esta que já não vai te servir. Que digam dessas balelas pelo tempo que quiserem. Não me custa. Pois que todos os meus te preferiram. Nada há para mim, sequer companhia, sequer sorriso breve. E essa secura de servidão, isso sim, me fará sorrir!

Desiste, então, se pensas que cederei a qualquer dos teus encantos, dos teus charmes, das tuas ousadias e das tuas chantagens. Já nada dessas baboseiras me toca. Entende. Gastaram-se todas as moedas, todas as vidas do jogo, todos os amores que eu nutria por ti, todas as condescendências, todas as concessões.

Acabaste te tornando mais um fardo, mais um desgosto. E agora não adiantam tuas lágrimas e teus pedidos. Já está feito. Gasta teu latim com a próxima que te fará favores. Há sempre uma solitária precisando de algo a ocupar o tempo. Passar bem, meu antigo dono. Minha coleira já se partiu.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Eu Quero!

Eu quero ter um milhão de amigos, disse Roberto. Eu quero a sorte de um amor tranquilo, recitou Cazuza. Eu só quero um amor que acabe o meu sofrer, segundo Gil. Eu quero você, como e quero, by Kid Abelha.

O que eu quero? E o que eu quero serei eu a querer? Sim, a eterna permuta do ser. O que quero, o que sou, o que tenho, o que conquisto, o que posso. E eu quero apenas olhar os campos? Não! Claro que não! Quero a fumaça cinza das fábricas. Eu quero só você.

Quero o poder de querer e de conquistar. De brandir espada e reluzir escudo. Quero a morte o a sangue nas mãos. Quero eliminar inimigos, fazer reféns, queimar palácios. Quero a luta e quero o prêmio. Quero a virtude da donzela e a paixão do efebo. Quero a sapiência do vizir e quero a diplomacia do bárbaro. Quero fazer de ti meu escravo, meu consorte, meu tesouro. E te pilhar.

Eu quero a vastidão devastada do peito apaixonado, da mente embotada pelo corpo nu, dos sentidos frenetizados pelo cheiro da carne. Quero tua carne crua, servida em bandejas de prata e entre lençóis de linho. Brancos, a conter o sangue de tua castidade. Quero tua dor e tua glória, quero teu instinto e tua singeleza. Quero abusar de tua alma ainda não perversa e deleitar-me, é o que eu quero, nos quatro acordes do teu verso.

Eu quero tomar de assalto a tua pureza intocada. Eu quero ser a possessão demoníaca que suga tua alma. Eu quero beber tua saliva e tuas lágrimas. Eu quero te submeter a mim. E eu quero que essa vontade não passe. Quero que permaneça no éter como espectro errante a rondar teu leito. Quero sorver a vida que existe em ti, tua razão, teu orgulho. É o que eu quero.

Quero afogar-me dentro do copo gelado. Quero corroer-me como veneno sobre os vermes. Quero domar minhas ânsias animalescas de fogueiras pagãs. Quero parar de te desejar. Parar de sonhar contigo, é o que eu quero. Juro que quero...

Irrepreensível

Essa sua dualidade é impensável. Irrepreensível. O que mais dizer?... E quando você vem, assim, manso... procurando colo, procurando achego, procurando consolo, quem sabe. Como resistir a você, a esse seu charme criança, essa doçura infantil regada a puro sex a peal? Como resistir?

E você ainda ousa dizer que não é amado, que não é bonito, que não é! Blasfêmia, heresia, pecado mortal! Logo você, fonte inesgotável de beleza tão rara. De vontades tão rasas. De desejos pueris. Logo você, fonte absoluta de meus anseios, você que eu venero como se venera a um Davi... assim, de longe... Logo você vem dizer que é menos que esse tudo e que tudo se revela em nada em você.

Mentiras, mentiras. De alguém que ainda vê o mundo com os olhos da puberdade recém perdida. Da fragilidade, da infância arredia, da inocência. Inocente, sim! Que mais dizer? Alguém que não imagina o quanto é perfeito, o quanto é belo, o quanto é! O quanto ainda pode ser...

E perdôo-te qualquer pecado, esses de arrogância, de ignorância, de insapiência. Perdôo qualquer rompante seu, qualquer arroubo breve. Tudo enfim, desde que ainda esteja ao alcance da minha voz. E essa sua voz que me deita por terra, que me arrasa as forças, que me elimina... 

Deixo de ser eu mesma, menino, para ser o que você quiser de mim. Deixo de me pertencer para pertencer-te. Deixo-me, se você assim quiser. Mas você não quer. Não me quer. Quer me ensandecer. Tanto é seu ego que não percebe o quanto de mim é seu. Que sou de mais ninguém e a ninguém mereço-me tanto. 

E é nessas horas, nessas conversas, que esse seu ciúme mal disfarçado me incendeia. Esse ciúme que vem em forma de orgulho ferido. Que renega comparações. Mas que nada mais é do que queixa suprema de me ter só pra você. E assim eu sou, somente sua. E assim serei, a estátua a venerar-te, até o dia em que você, magnânimo de seu pedestal, puder e quiser olhar pra mim.

domingo, 7 de agosto de 2011

Consciências

Rapidamente, ela percebeu que era descartável. Ou que as pessoas ao redor eram descartáveis. Meros decalques num álbum de figurinhas incompleto. Tudo bem, não foi tão rapidamente assim. Foi preciso um dia em especial, uma noite em especial. Uma única noite de sábado na qual ela estava livre. Livre de gritos, de manhas, de brinquedos, de obrigações. Quatro anos depois, uma noite sem sua filha em casa. Naquela mísera noite, ela podia sair, viver. Quem sabe, trazer um corpo para aqueles lençois estéreis. Afinal, não era feia, não era velha. Era uma mulher na plena consciência de si mesma.

Todavia, quando tentou conseguir companhia  - inofensiva - para a noite de sábado, a companhia daqueles e daquelas que se diziam amigos e que, por isso, deveriam dividir um prato, um copo, um riso... ninguém apareceu.

Nada, como se ela não existisse como se aqueles mesmos que desfrutavam sua casa, meses antes, não a conhecessem. E foi quando ela se deu conta de que não tinha amigos.

Amigos são pessoas que estão presentes, seja na festa ou na melancolia. Seja na docilidade ou na depressão. Amigos são aqueles que estão lá quando se precisa. E não havia nenhum. Muitos conhecidos. Nenhum amigo. Depois de algumas horas tentando sair de casa, chegou à conclusão de que estava realmente sozinha.

Um parêntese cabe aqui. Era uma mulher independente, autodefensiva, bem resolvida. Forte como nenhum macho conseguiria ser. Entretanto... a fragilidade se mostrava em forma de abandono. Forte demais para qualquer aproximação verdadeira, quem sabe.

E, nesse momento, lembrou dos amigos de verdade. Cada um deles mais distante que o outro. Aqueles com quem podia contar. Aqueles que sempre estavam lá quando ela chamava, quando tinha vontade de chorar... Uma palavra de conforto, um sorriso em forma de emoticom... Aqueles eram amigos de fato. E estavam todos tão longe... tão longe que só se podiam alcançar por um clique... Virtuais, quase imaginários, aqueles que a amavam de fato. 

E, quase naquele mesmo momento, sentiu saudades dele. Aquele que podia ser mais do que amigo. Que poderia ser o homem ideal.

Ideal! E eles eram quase iguais em tantas coisas. Machistas, ele e ela. Idealistas, caçadores, solitários. Amantes das boas coisas, dos corpos jovens. Ele era a versão masculina dela.  Poderia ser o homem da sua vida. Poderia ter sido.

Foi também quando ela se deu conta de que continuaria assim, sozinha. Quando aquele que era a personificação de seus sonhos, era nada mais, nada menos, do que um amigo gay da internet... Para onde correr depois disso? Para onde fugir, se esconder? Como se esconder de si mesma? Como, senão deitando toda a angústia do conhecimento sobre o papel branco?

Foi quando o gato veio brincar com a caneta, morder o caderno, deitar displicente na mão que escrevia, como quem diz: “Não precisa disso. Eu estou aqui. Eu amo você.” E ela entendeu. Talvez, fosse a hora de mudar de estilo, de amigos, de estado! A hora de mudar de ares. Estar mais perto dele, fisicamente. E isso seria tão bom...

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Inspiração... a quatro mãos


Comecemos numa noite escura. Como esta que faz aqui, agora, fria e estrelada. Poderia te falar da noite e da lua crescente que tem no céu. Mas, não quero te escrever uma carta. Tampouco um diário. Quero apenas essa conexão... talvez fosse o que faltava.
Voltemos à noite escura.  
Gosto de andar nas noites da minha cidade quase fantasma. Gostos dos meus fantasmas com sotaque sulista. E meus fantasmas me visitam quando escrevo, pairando por cima do ombro pra espiar entrelinhas. Você entende?
É sempre noite quando escrevo, mesmo que seja dia. Mas não vou te contar meus dias. Só as noites. Só as entrelinhas. E, quem sabe, possamos compartilhar fantasmas.
A ideia te agrada?

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Crise de Inspiração!

Acabei de ouvir de um amigo (homem, óbvio!): "Nada melhor que uma boa trepada pra inspirar!"
Discordo! Alguém concorda? Comigo ou com ele?
Sexo feito é sexo gozado e gozo é inspiração derramada. Seja derramada ou não!
Inspiração é tesão que não se manifesta, não se concretiza, é desejo velado, transgressor.
Inspiração é querer aquele corpo (aquele!) mais que a sanidade permite admitir. É daí que nasce o gozo do texto! Aquele que mela as teclas enquanto a gente delira...
Discordam?...