quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Sobre Paixões e Sabotagens


Descobri uma coisa hoje sobre paixões. (Mentira isso, eu já sabia!) Se não for instantânea, fatal, toda paixão é forjada. Se não for naquele primeiro olhar, quando a boca vira areia, o coração fibrila, as pernas imitam Parkinson e todos os líquidos do corpo escorrem pelas palmas das mãos... se não for assim, é falso! Mero desvio mental, consciente até certo ponto, ponto de partida para a ruína programada.

Pode não parecer, mas este texto é uma apologia à paixonite. Nada do que eu falei até aqui é pejorativo ou inverídico. Como pode? Assim, deixem explicar.

Podemos nos apaixonar com o tempo, pela convivência, por afinidades, por sabermos que a outra parte sente algo por nós, por tesão. Sim, tudo isso é motivo, gatilho para a paixão entre dois seres pensantes – que, naquele momento ou em vários, não estão tão pensantemente operantes quanto pensam.

Isso é ruim, essa autoindulgência passional? Não! É ótima! Deixa a gente sorrindo feito bobo, derramando café fora da xícara, faz até perder o apetite – fato resultantemente positivo. Contudo, mesmo imitando os desgastes emocionais e as friagens estomacais da paixão real, instantânea (aquela que arrebata e faz você perder o chão em um único quase passo), essa paixão de ocasião é fruto puríssimo de sua consciência solitária. Da nossa, devo dizer.

Funciona, óbvio! Funciona, mas não é honesta. Porque quase sempre nos moldamos para encaixar as peças (Legos andantes) umas nas outras. Idealizamos, fingimos para nós mesmos, repassamos um mesmo futuro de diversas formas diferentes numa única noite insone para, de manhã, termos resolvido todos os pretensos furos dessa potencial história de amor. Não é errado, mas é mentira.

Trapaceamos tanto que acreditamos no embuste. Queremos amar, queremos ser amados, fazemos o que for preciso para isso. Não somos ingênuos, só estamos desesperados. Chegamos à encruzilhada onde qualquer carinho, qualquer toque, vale o erro. Imagine a oportunidade de protagonizar uma história de “até que a morte os separe” ou pior, de “e viveram felizes para sempre”. É quase impossível resistir. É uma droga, um alucinógeno.

Mas, não. Não fique deprimido. Saiba que todo mundo faz isso. Todos nós criamos o monstro da falsa paixão, nos adequamos, adquirimos hábitos, simulamos gestos. E olhamos de maneira diferente, intencionalmente diferente, para a pessoa-alvo. Olhamos tanto que o sem graça se torna simpático, que o feio fica bonito, que o disponível passa a ser necessário. E aí, pronto, estamos apaixonados.

Nos apaixonamos pela ideologia de ter, pela agradabilidade de compartilhar, pela euforia de sentir. Enganados por nós mesmos, autossabotados, fadados ao fracasso quando, finalmente, a realidade bate em nossa cara. Felizes da vida, por enquanto. Afinal, quem não ama se apaixonar?!