segunda-feira, 26 de março de 2012

Por Um Abraço

A pouco mais de cinco anos, uma noite dessas seria um convite à navalha. Àquela sensação reconfortante de vazio, de que o nada poderia ser meu. Enfim... Em outros tempos, outra vida, a vida não seria empecilho. Em outros cantos, outras mortes, a morte seria bem-vinda. Eu sei, eu sei. Difícil entender um instinto suicida... Não liguem. Essa sou apenas eu.

O fato é que, agora, este exato momento, revivo a sensação de quando a navalha estava tão próxima. Estranho sentimento, pois nada no mundo poderia me matar agora. Não mais. Já não sou assim. Tenho pelo que viver. E vale a pena cada dia.

É exatamente por isso, por ter abdicado conscientemente de meu lado funesto que, agora mesmo, sinto que algo não se encaixa. Eu não deveria – não poderia! – me sentir como na época da dor... Ou deveria?

O que eu sei é que, quando se é um solitário por opção, o nada faz companhia. A gente acostuma a estar só, mesmo cercada de gente. Entende? É, sei que entende. E é fato que essa solidão faz bem pra nós... Nós, os solitários.

Mas, tudo muda. Há cinco anos, um pouquinho mais, descobri que a vida era melhor do que a sombra constante da morte. E achei, sinceramente, que a fase da tristeza havia acabado. Sim, sou feliz! Sim, sou completa. Sim... estou viva.

E se é assim, por que me sinto agora tão triste quanto – Não! Mais triste! – na época em que flertava com a morte? Como pode, depois de tudo, a tristeza me pegar desse jeito tão certeiro? Como pode um simples fim de semana mudar tudo? E tudo muda...

Perguntas, perguntas... Mas eu respondo. Dessa vez, tenho as respostas. Pela primeira vez, que eu me lembre, não estou sozinha porque quero. Não é opcional. E daria qualquer coisa por um abraço, um sorriso. Um afago que ficou distante. Dois mil quilômetros distante de mim.

Eu que sou dona do mundo, eu que sou melhor do que a morte, agora sinto falta de um amigo. Um único amigo que me faça menos solitária do que estou. E a presença da sombra a rondar agora me apavora. Não a quero mais.

Difícil isso de depender dos outros. Tinha me curado desse mal. E agora... Agora sofro como nunca antes a ausência de quem nem mesmo – talvez – sente a minha falta. É, tenho medo de não ser importante pra eles como eles são pra mim. Nem sei se sabem que são. Importantes.

Não sei se sabem do meu lado tristeza, do meu lado abandono, do meu lado carência. Me deixei abater. Baixei a guarda. Voltei a amar pessoas... Culpa deles, esses que estão tão longe. Esses que nem sequer sabem o quanto eu preciso de cada um, de um. Abraço.

Esqueçam. Isso passa. É só dor. Só ausência.

Sorriso Triste

– A culpa não é sua. Sou eu. Eu e essa minha carência.
– Mas, se você está carente, a culpa também é minha.
– Você não tem culpa de nada. Você faz tudo o que pode... sou só eu.
– Fico triste de ver você assim.
– Eu também.
– E chorar? Não ajuda?
– Não. Não consigo. Acho que não tenho lágrimas.
– Todo mundo tem lágrimas.
– É. Mas eu não quero chorar. Não sinto vontade.
– Me diz o que fazer.
– Nada. Não precisa fazer nada.
– Então, me fala o que incomoda você. Quem sabe...
– Sei lá. É só tristeza. Solidão. Todo mundo que eu amo está longe.
– Eu amo você.
– Eu sei. Também te amo. Mas... não é a mesma coisa. Não tenho com quem conversar.
– Converse comigo.
– Pare. Você está me deixando pior.
– Desculpe...
– Tudo bem.
– Não fiz por mal.
– Eu sei. Olha, vou deixar você agora. Tudo bem?
– Sim. Se precisar, estou aqui.
– É. Você sempre está.
Sorriu um sorriso triste, beijou o espelho e se foi.

domingo, 25 de março de 2012

Descobri que Não Preciso Mais de Homem

– Descobri que não preciso mais de homem! – disse estridentemente Teresinha para sua vizinha, Abigail, enquanto lhe servia uma xícara de chá na sala de casa.
– Como assim, comadre? – quis saber a outra, xícara tremendo na mão – Todas precisamos de um macho de vez em quando. Mesmo que pra trocar a lâmpada do quartinho, que tem teto alto.
– Pois é o que eu lhe digo, comadre. Não preciso mais. E não estou falando de lâmpadas. Muito menos de quartinhos!
– Teresinha, minha amiga, me explique isso! – implorou Abigail, ainda com o chá por beber.
Uma pigarreada mais tarde, Teresinha lança para a amiga um olhar lânguido. A boca pintada de pink quase sorri antes da confissão.
– Gozei ontem. Pela primeira vez.
Abigail faz um tremendo esforço para não derramar o chá. Equilibra a xícara habilmente enquanto tenta formular as frases com alguma coerência.
– Que é isso, comadre? Que linguajar... Não é do seu feitio.
– Pois, agora é, comadre. Falo sim. Falo em gozo. Orgasmo, sabe? Já teve? Se já teve, sabe!
– É. Pois então... Sou casada, você sabe.
– Coisa pouco confiável. Eu também era. Você sabe.
– É, eu sei – disse Abigail dando um gole no chá.
– E então? – insistiu Teresinha, o sorrisinho no canto da boca abatonzada. Abigail nunca a vira usando batom antes.
– Então o quê?
– Já teve um orgasmo? Já gozou, comadre? Com um homem?
A vizinha até abriu a boca, mas o som não saiu. Ficou assim, parada no ar, os olhos muito covardes quase ao ponto das lágrimas. Por fim, falou, muito ressentida.
– Isso lá é coisa que se pergunte a uma mulher de bem?
– Eu sabia! – a gargalhada indiscreta de Teresinha foi o arremate – Nunca gozou, não é, comadre? Não se apoquente, é normal.
– Ora, pois não sei o porquê dessa conversa – disse Abigail, irritada, largando a xícara de chá sobre a mesa. – Tudo bem que somos amigas, mas tudo tem seu limite.
Fez menção de levantar para ir embora. Teresinha renovou aquele sorrisinho rosa pink e recostou na cadeira, calmamente.
– E vai embora assim, comadre? Não seja carola, Abigail. Não quer nem saber como eu consegui? Não está curiosa?
– Na certa se enroscou com um desses malandros – atirou a vizinha sem encarar a amiga. – Mulher largada dá nisso.
– Ora, mas se te disse a minutos que não preciso mais de homem... como pode ser?
Abigail, bolsa já no ombro, parou para encaixar as frases. Pensou um pouco, voltou, sentou. Apanhou o chá já morno e deu um gole.
– Ta bom. Me conte.
Solenemente, Teresinha se ergueu e deixou a sala. Voltou tão logo, trazendo nas mãos algo que quase fez Abigail benzer-se com o sinal da cruz. Aquela coisa era grande e rosada, quase de verdade, impressionantemente realista. A voz empolgada de Teresinha entrava pelos ouvidos de Abigail e se instalava em alguma parte oculta da memória. A narrativa detalhada. Explicativa. Quase uma aula. E os olhos apavorados da vizinha não desgrudavam da coisa.
– Isso aí também troca lâmpadas? – perguntou Abigail aparvalhada depois da palestra.
– Lâmpadas?
– É... sabe? Do quartinho.
– Ai, amiga. Compre uma escada.
Quando, naquela noite, o marido de Abigail chegou em casa, encontrou o prato sem janta, sua mala feita, uma escada aberta no meio da sala e sua mulher tranquila, fumando seu primeiro cigarro. A boca pintada de rosa.

terça-feira, 20 de março de 2012

Lágrima

Eu, que nunca choro, hoje me doo. Não de doar, mas de doer. E dores vêm a me assolar. E molho meu rosto, meu todo. Me verto em prantos. E não sei por quê. Não sei por que choro. E eu que não choro, agora me derreto em lágrimas. E dói. Sofro por um desejo, um sonho, um algo a realizar. Algo tão distante, tão bonito, tão meu, que me escapa.
 .
Eu, que não sei chorar, agora me desmancho em soluços inaudíveis. E meço cada fio de pranto com a mesma régua que tolhe o destino. Sim, sou tolhida, cortada, podada como um galho de parreira. E de minhas frutas se extrai o vinho incolor que agora desce por meus olhos. E ainda não me doo. De doar. Porque dói.
 .
Eu, pedra bruta, força plena. Na solidão do meu luto interno, me desnudo. E sinto o toque da lágrima a queimar a pele. E sinto o toque da pele a ferir a alma. E sinto a falta da alma no toque que não há. E, por mim mesma, por minha ausência, choro.
 .
Eu, que vivo sem culpa, sem medo, sem métrica. Eu que sou o que sou por vontade, por teimosia. Eu sou essa que chora. E que no espelho não se reconhece. Porque essa que chora não posso ser eu.
 .
Eu, a que nunca chora. Eu, a rocha. Mas me vejo, não há escape. E se me vejo em prantos, é porque ainda sei chorar. Essas lágrimas de sal que me molham a boca são as mesmas lágrimas que me fazem humana. E há tanto tempo eu tento esconder essa humanidade em mim.
 .
Eu, a inumana. Eu, a que não chora. Eu, que agora pranteio, solenemente, a ausência que causas em mim. Saudade é a palavra escrita em cada lágrima a percorrer a face. Saudade, meu amor distante. Saudade. De mim. De ti.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Não Me Mandem Flores

Estou assistindo na internet um crescer emaranhado de discussões sobre a mulher. Proximidades do dia 8 de Março, creio e compreendo. Aliás, creio, compreendo e desprezo! É, desprezo! Faz anos que digo e repito, não me cumprimentem pelo Dia Internacional da Mulher. Não comemoro a data. Obrigada!

E todos ficam confusos. Alguns até olham feio. “Mas, como?” – perguntam – “Você não gosta de flores? De presentes? De elogios? Afinal, é o SEU dia especial!”

Sim, eu explico! É claro que gosto de elogios e presentes. E qualquer mulher que diga que não gosta de ganhar flores, está mentindo! O problema é a data, o tal Dia Especial... Alguém, por acaso, sabe o porquê da data 8 de março? Não???

No Dia 8 de março de 1857, operárias de uma fábrica de tecidos de Nova Iorque fizeram uma greve. Ocuparam a fábrica e reivindicaram melhores condições de trabalho. A manifestação foi reprimida com violência. As mulheres foram trancadas dentro da fábrica, que foi incendiada. Perto de 130 tecelãs morreram carbonizadas. Em 1910, na Dinamarca, o 8 de Março passou a ser o "Dia Internacional da Mulher", em homenagem àquelas mulheres. Em 1975, a data foi oficializada pela ONU. Fonte

É, você nem sabia disso... E as discussões sobre o tema também são cansativas. “O papel da mulher na sociedade contemporânea”. Desculpa, mas o papel da mulher é o mesmo de antes. O mesmo de sempre. Eu sou mãe, ainda levanto cedo pra arrumar minha filha pra aula. Eu sou dona de casa, ainda varro, lavo e alimento a criança e o gato! Sou profissional, o esteio da família, como todas sempre fomos, pois que sou eu que estou aqui e que sobrevivo e que faço sobreviver.

Erro em meu julgamento? O papel da mulher é aquele que ela mesma se impõe. É o papel de gerir, de administrar, de alimentar, de educar, de parir, de segurar qualquer barra. Esse é o meu papel. Não preciso de um dia de graça pra me lembrar dele. Eu o fiz, eu o assumi, eu gosto assim!

Discurso feminista? Nada!!! Discurso realista, isso sim! O que mudou no papel da mulher contemporânea é que, agora, não temos mais que aturar os homens a nos incomodar e levar as glórias! Não me entendam mal, adoro homens – pra diversão, não pra feitor! Pra andar de mãos dadas, não na coleira!

Portanto, meus amores, meus fãs, meus amigos, se vocês quiserem me mandar bombons, palavras doces e cartões com carinhas felizes, por favor, aguardem o meu aniversário. Dia 11 de junho está aí, bem pertinho! E eu vou adorar ganhar flores, mesmo que virtuais!

sexta-feira, 2 de março de 2012

Aeroporto

Pensei em escrever algo no blog. Protelei um pouco, com medo de que o nó na garganta se soltasse e escapasse pelos olhos, molhando as palavras. Pensei em pensar em outra coisa, desviar a percepção, ocupar as mãos. Pensei em pular do trampolim direto no centro da pilha de trabalho ainda por terminar.

Desisti de tudo isso. Desisti de me fazer forte. Desisti de desistir. Faz tempo que a falta de alguém não me pesa tanto nos sentidos. Falta real, humana, não aquela encenada que povoa os devaneios literários. Falta que faz apertar o peito, que faz encolher a alegria. Falta que faz derramar letras inúteis sobre folhas virtuais.

Saudade é o nome desse sentimento tão mesquinho, egóico, treslouco. É a saudade que faz o sabor se perder na língua. É ela que cala o telefone. Que faz o cérebro embotar na lembrança do cheiro do perfume. É a saudade que sinto agora que me faz querer respirar ares menos porto-alegrenses – pela primeira vez, vejo essa vontade real, materializada e quase irresistível. Eu disse “quase”?

Que solidão é essa que me grita pra fazer as malas? Que sensação é essa de braços ao redor de mim, tão ternos? Que desventura a minha que a minha aventura tenha durado tão pouco. E acabado assim, num blim-blom de aeroporto – atenção, senhores passageiros com destino... E me acabado assim, nesse poço úmido de saudade. Saudades...