quinta-feira, 19 de julho de 2012

Sobre Amores e Hibiscos


Ele era seu amigo, seu melhor amigo. E ela não o incluía em qualquer devaneio lascivo. Primava por não deixar aquele amor puro se perder em arroubos de sexo sem motivo. Tinha por ele tal carinho, que via-o além da carne. Não que ele não fosse bonito. Era lindo! Mas ela nutria por ele muito mais do um reles desejo. Realmente, não pensava no amigo dessa maneira. Não pensava nisso. Até que o namorado dele chegou...
Não era tão bonito, nem tão amigo. Mas era desejável e fazia questão de lembrar, a todo instante, que ela não lhe passava despercebida. Seu interesse era nítido, invasivo até. Estranho no início, mas apaziguado pelo contexto de humor que o amigo imprimia às investidas do namorado e ao desassossego dela. Engraçado, bonitinho, um mimo.
Saíam juntos, riam, brincavam, andavam os três de mãos dadas. E os chamegos foram incorporados pela amizade despretensiosa. Nenhum perigo. Nenhuma fome. Nenhuma fome?
O vinho gelava as três taças sobre a mesinha de centro. Nos confortáveis sofás brancos em L, eles gargalhavam e diziam bobagens. A noite agradável contribuía para o clima descontraído.
– Vou abrir outra garrafa – anunciou o namorado, deixando seu lugar e sumindo pela cozinha.
Voltou com a garrafa já sem rolha, encheu as taças, mas não se aconchegou ao outro, como antes. Assim displicente, aninhou-se junto dela, abraçando-a às costas. Nenhum dos três tomou maior conhecimento do feito. Já era corriqueiro andarem enlaçados. Todavia, a conversa foi tomando rumos mais tensos, mais picantes. Sexo verbal, por assim dizer.
E ela saltou do sofá como gato fugindo d’água quando os lábios do namorado de seu amigo tocaram-lhe a nuca. Instantaneamente, a conversa risonha cessou. Ela voltou-se, mãos na cintura, rosto afogueado.
– Não faça isso, sim?
– Que foi? – perguntou o namorado – Não posso mais beijar você?
– Claro que pode. Só não chegue perto do meu pescoço – ela riu – Dá choque!
O namorado riu também. O amigo não. Eles bem que tentaram, mas o clima ameno da conversa não se restabeleceu. Ela sentou-se ao lado do amigo e enredou os dedos nos dele. Aquele lugar era mais seguro, inofensivo.
Silêncio opressivo na sala. Taças vazias, garrafa também. A mão livre do amigo num carinho nos cabelos dela. A cabeça dela no ombro dele. O namorado do outro lado, a observar. Ela não percebeu qualquer troca de olhares entre eles, qualquer gesto, senha... Só não se esquivou quando o amigo inclinou-se sobre ela e a beijou.
No princípio, um beijo terno, de amigo. Um segundo depois, o gosto doce da língua ébria em sua boca. Ela quis protestar, afastar-se, mas o outro, surgindo colado neles – a boca perigosamente perto do pescoço dela –, não deixou.
...
Foi com certa urgência e uma leve tristeza que ela deixou a cama revirada, descolando-se com cuidado daqueles corpos adormecidos. Um banho, uma caneca gigante de café bem forte. Alcançou o jardim quando o sol bronzeava os hibiscos em botão. Abriu o notebook sobre os joelhos – seu infalível caderno moderno – e pôs-se a delirar sobre os inusitados percursos do amor.

sábado, 14 de julho de 2012

Tic-Tac


Sinto o peso da idade invadindo as entranhas. Sinto o roubo das horas, a agonia da pressa. Sinto o cansar dos passos não dados. O arrastar das ideias. Sinto a década como se fosse o dia. Sinto a mácula da face no espelho. Minhas marcas.

Estou ciente dos vestígios, das migalhas pelo caminho. Consciente de tudo que era, que já foi, que não volta. Não há volta. Só há o rumar inerte ao começo do fim. Esse final que, ao que parece, já é agora.

O futuro? A mente alerta que traçava planos não é a mesma mente mansa que vê os ponteiros do tempo contando em anos. Tic-Tac. Não vejo o tempo passando. Só ele me vê. Não há trilha. Não há tempo.