quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Vazios Aniquilados



Tive todas as “coisas” que quis ter na vida. Conquistei frescuras, brinquedos, tecnologias. Adquiri objetos úteis e inúteis, fúteis e necessários. Tive compensações e descompassos. Tudo eu tive de artefatos. Mas as pessoas... essas eu não tive todas.

Algumas eu quis por princípio, por ego, por conquista. Outras eu quis apenas por vaidade. Dessas tantas, talvez tenha tido todas... Mas vieram aquelas que eu quis por mim. Aquelas que eu quis por bem. Essas fugiram, escaparam...

Não reclamo. Tive muitas e marcantes personalidades junto a mim. Rostos e mentes especialíssimos. Que me trouxeram melhorias indiscutíveis. Que me preservaram, que me renovaram. Me compreenderam.

Mas aquelas que não tive, as inatingíveis, me fazem falta. Não porque não as conquistei. Mas porque eram as certas, as que se encaixariam em definitivo nessas lacunas do coração. As que tornariam a vida menos cinza, menos métrica.

Algumas que desapareceram no vento. Voaram para onde jamais eu poderia alcançar ou seguir. Apagaram passos – talvez, no intuito mesmo de que eu não as encontrasse. Não lhes fizesse bem ou mal. Não lhes desse ou tirasse nada.

Outras, tão próximas, tão sádicas, ainda se mantêm diante dos olhos, ao alcance do toque. Essas me doem mais. Raríssimas que são. Desapegadas que são. Distantes dentro de nosso próprio abraço... quem dera um abraço...

Deixei que escapassem, essas pessoas que não tive. Não as prendi, não as reservei. Deixei que fossem. Para longe de mim. Esse longe que espaços virtuais arrastam de volta. Que se tornou tão ao meu lado, que lhes sinto o cheiro vez em quando.

Saudade de quem não tive. Ânsia rompante de saber-lhes os segredos. Pois que viverei nessa dúvida até a eternidade. Perguntando-me por que não foram minhas essas pessoas. Por que não me quiseram conter. Por que, ai de mim, fico assim tão sozinha justamente sem essas que jamais senti.

Fria análise sobre o realismo debelado



Crises sensoriais são quase sempre redundantes e recorrentes numa sociedade cada vez mais virtualizada, cada vez mais voltada ao próprio umbigo, já acostumada às comodidades assépticas e incompartilháveis. Os egocentrismos se expandem conforme a velocidade dos modens. As mesmas ferramentas que fazem de nós seres sociais, nos encarceram na mesmice do universo das redes.

O individualismo exasperado, buscado à custa ou à revelia dos contatos pessoais, tende a tornar confortável um simples click. A cada conversa, a digitação; em cada sorriso, um emoticon. E é nesse cenário fictício que nos convencemos de que somos queridos, de que temos amigos, de que estamos na companhia de outrem.

É também nesse contexto que a solidão nos enreda com seus tentáculos invisíveis. Dos quais apenas nos apercebemos quando já é tarde demais. Quando já nos sufoca a distância do semelhante. Quando beiramos a insanidade ao sorrir para a tela, ao conversar com o iPhone, ao não-ser se não estivermos online.

Entretanto, nada disso é verdadeiramente culpa do Deus Ex-Machina chamado Internet. Pelo contrário, é de posse de seu possibilitar de contatos que nos perdemos de nós mesmos. De nossos semelhantes presenciais, do mundo como o conhecíamos antes. Somos os responsáveis por esse sentimento de abandono que nos rodeia, que nos aparta.

Seres sociais e redes sociais são antagônicos. Enquanto o primeiro carece de relação interpessoal, o segundo gera a ilusão confortável de proximidade. Enquanto a rede esbanja rostos sorridentes e perfis interessantes, o ser se isola com a mesma velocidade do compartilhar de informações.

Raro o momento do encontro, do olhar, do abraço. Raro o trocar de palavras verbais. Raro o brinde tilintando copos ou o simples partilhar companhia ou pedaços de pizza. Nada mais se apresenta sem a virtualidade. E, nela, estamos absolutamente sós. Nos sentimos livres de laços, como se esses laços fossem maus, nos destronassem.

E quando chega o instante da necessidade do afago, seja ele tátil ou visual, compreendemos que realmente nos anulamos para os outros iguais a nós. A sós e únicos na esfera abarrotada de friends inanimados e sem emoção. Nenhuma reação obtemos do teclado ou do mouse. Nenhum gesto sequer.

O reprimir virtual é autoflagelo no que concerne ao estar, ao gostar, ao trocar sensações. É sabotagem autoimpingida no que tange ao conceito básico de socialização. É frustrar-se sem resposta no chat. É deprimir-se quando não há com quem teclar. É encerramento, claustrofobia. Isso não é liberdade, é desamparo.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Só que não!



Sim, eu posso. Tudo o que você quiser, eu posso. Tudo o que você me pedir, me exigir. Tudo o que desejar. Tudo eu posso. Só não quero.

Sim, eu tenho. Tenho saudades de você. Tenho desejo por você. Tenho vontade de me entregar a cada segundo do meu dia. Só não vou.

Sim, eu gosto de você. Sim, estou apaixonada. Sim, eu ousarei dizer as três palavrinhas proibidas. Sim! Eu te amo! Só cansei.

Sim, eu entendo. Cada explicação, eu entendo. Cada esquiva, cada desculpa. Cada discurso libertário, ordinário, tudo eu entendo. Só não concordo.

Sim, eu ainda te quero. Eu ainda te espero. Eu ainda vou estar aqui quando você ligar. E você vai ligar. Só que, dessa vez, eu posso não atender.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Poesia



Já dizia o poeta que amor é fogo que arde sem se ver... Queria ser um pouco Camões nesses momentos de lucidez. O delirar da pena manchando de tinta o papel avulso. Compromissado apenas com o próprio criar onírico... Mas, quem sou eu para tal comparação?...

Um grão minúsculo de areia é o que sou, comparada à vastidão de praias do poetizar... Nunca fui poetiza de fato. Sou só alguém que verte palavras sem muito sentido. Carentes de significado. Dando-se significância além da conta. Tudo que tenho é o sonhar...

Lúdico sonho lúcido, doce saborear dos devaneios... Cabe, em parte, em mim, esse rejuvenescer da poesia. Cabe em minha mente o mágico mundo das estrofes cadenciadas. Contudo, não me atreverei a rimar, já que a métrica desmanda de minhas linhas. Já que a fonte de meus versos se esvai tal qual fumaça no vento...

Instante eterno esse da fumaça alcançando o espaço e se desfazendo, se despedaçando. Desintegrando como os sentimentos que vagam por mim. Ou será que basta a brasa acesa do cigarro para que a essência do sentir retorne? Ou o primeiro gole de vinho, talvez...

Antes que a embriaguez alcance as frases no papel, devo concentrar o pensamento. Antes que esse último cigarro se queime em cinzas, devo decidir se desisto ou se persisto no poema. Esse, inacabado, inextinguível. Esse que envenena a imaginação. Devo cerrar meus olhos e deixar que esse rosto se vá...?

Nem em mil anos conseguiria tal feito. Minha sina é jamais arrancar a inspiração da mente pensante e recrudescente que insiste, martirizada, em tornar a musa real. Eis porque não sou Camões... Não sei polir o soneto. Não sei abandonar a pequena lira de Erato. Não sei esquecer aqueles olhos...

Olhares mortais que já não são para mim. Eu, que morro sozinha no afã do lirismo inapto. Tão insolente que sou ao proclamar-me trovadora, literata... Tão insignificante que sou diante do poder do olhar que reescreve minha parca criação... Que recria minha saudade, minha solidão... Enfim, me refaz em rimas.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Será?



Eu tentei... Juro que tentei... mas impossível não pensar em você. Tentei com todas as forças, fiz o meu melhor. Alucinei. Nada. Minha mente teima em voltar pra você a cada instante vago de questionamento.

Sabe o que é isso? Tentar e não poder? Persistir e não conseguir? É mais forte do que eu, do que a minha vontade. E note que a minha vontade é tudo! Você consegue conceber tal desacerto? Essa impossibilidade incapacitante? Pois é!

Fiz tudo o que podia ter feito. Bebi copos, beijei bocas, rocei corpos alheios, enfim... Minha mente corria pra você ao final de cada tentativa – ou no meio delas! Corria gritando seu nome... buscando seus olhos... mas não era você... que triste.

Triste saber que não posso me libertar de você, de sua presença, de sua lembrança... Triste saber que você não dá a mínima pra todo esse meu sonhar. Que, pra você, está tudo certo, tudo bem... Nada está bem, meu amor, porque você não está aqui...

Só sei de uma coisa ao certo. Sei que sinto sua falta, que procuro seu cheiro em outros corpos e não encontro, que busco por você que está tão longe. Longe de mim, dos meus quereres devaneados. Longe... e nem se importa com isso.

Não se importa com o fato de que eu sinto saudade... de que eu me sinto perdida longe de você. Longe do seu beijo, do seu abraço... De que eu preciso ao menos ver você... ver, nada além disso...

Me dê, meu menino, um pouco do seu tempo, do seu carinho que me faz tanta falta... Tenha pena de mim, que magnânima que sou, caio de amores por você... Tenha pena de mim, criança. Eu que estou aqui sozinha, solitária, a lembrar de você a cada instante...

Tenha pena de mim e venha, ao menos, deixar que eu veja você. É pedir muito? Será? Será que você não sente a minha falta? Será que você não gosta nem um punhadinho assim de mim? Será, meu amor, que seu orgulho é maior que esse sentimento? Será...?

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Deleite



O veio rubro latejante se projetava por entre os montes brancos que eram os seios. A fina linha abria seu caminho em ondas cadenciadas, fluindo por sobre o colo perfumado e manchando sem pudores a renda do decote. O peito arfava de forma quase imperceptível enquanto os lábios entreabertos perdiam lentamente seu ardor róseo. A dama dormia, inebriada pelo vinho que se lhe escapava do hálito. Serena como uma flor eternizada numa natureza morta, ela jazia entre as almofadas macias do divã. A pele já quase tão pálida quanto seu vestido enfeitado com pequeninas fitas cor de pérola, contrastando apenas com o negro azulado dos cabelos crespos, presos dignamente num coque no alto da cabeça.

A sala, iluminada por candelabros de bronze, trazia tapeçarias coloridas nas paredes e figuras florais nos quadros suspensos; tudo parecendo dançar à luz de tantas velas. Nessa claridade difusa, a dama tornava-se ainda mais irreal, quase etérea, uma carapaça translúcida que apenas no frescor da aparência se assemelhava a uma pessoa de verdade. Sua pele leitosa parecendo derreter-se sob o vão bruxuleio dos pavios incandescentes. E nada mais se movia. Nenhum som se ouvia no aposento. Nem mesmo a mais leve brisa parecia soprar.

Pousados imóveis ao lado dela, não mais do que uma sombra no recanto mais escuro do quarto, dois olhos vítreos a fitavam. Olhos de um verde escuro intenso, transbordantes de uma paixão inexplicável, inequívoca, avassaladora. Lábios cerrados, sem qualquer tensão. Costas eretas e cabelos bem alinhados presos por um cordão de seda. Uma figura única, esplêndida, absolutamente inexpressiva em sua beleza ambígua. Quieto o suficiente para confundir-se com a mobília. Se mais alguém habitasse aquele cômodo, diria que só a moça dormia ali, que mais nenhuma criatura viva estava na sala, tão imaculadamente inerte era a figura vestida de veludo púrpura e negro que se debruçava sobre o divã. Uma simples escuridão sem forma cobrindo a jovem, não fosse por sua pele. Aquela pele de mármore fino, sem cor, sem movimento, sem vida. Uma estátua fria. Mas, ao mesmo tempo, os olhos verdes denunciavam o quanto aquele ser estava vivo, o quanto estava atento a cada detalhe da dama deitada no divã, logo abaixo de si.

Súbito, ela deixa escapar um suspiro. Tão suave e inesperado aquele som que inunda o ambiente, a ponto e sobressaltar seu observador de pedra. Ele piscou uma, duas vezes, como se apenas naquele instante se desse conta de que realmente estava ali, olhando para ela. Ou como se só naquele momento a visse como algo além do mundo dos sonhos. Então, ele também suspirou. A mão enluvada moveu-se, felina, com a leveza do silêncio que o rodeava. Com a outra mão, removeu uma das luvas e antes de tudo afastou uma mecha escura que lhe caía sobre a testa. Só depois disso, a sombra estendeu a mão pálida na direção da moça.

Não chegou mesmo a tocá-la. Mansamente aproximou a ponta dos longos e gélidos dedos dos lábios delicados e quase desprovidos de cor. Ficou imóvel por um momento, sentindo a respiração escapar cada vez mais fraca. Recolheu a mão e, após um breve instante de hesitação, deixou o corpo deslizar para baixo, calmo, como se fosse beijá-la. E beijou. De um modo sutil e com tamanha ternura, encostou os lábios nos dela, ainda mornos. Mesmo sem qualquer movimento aparente, a sombra entregou-se à onda de eletricidade que lhe percorria, incendiando-o durante os intermináveis segundos daquele beijo. Juntos, eram como uma das imagens bordadas nas tapeçarias, duas jovens e belas crianças eternizadas num momento de amor.

Quando tornou a abrir os olhos e lentamente afastou o rosto para observá-la, a jovem já não respirava mais. Pálida como uma escultura de cera. O fluxo pulsante, que lhe regava o colo e lhe desenhava uma rosa cálida no rendado entre os seios, finalmente se extinguindo, definhando até parar por completo. A vida saindo dela como se nunca a tivesse habitado. E só então ele se ergueu. E seu rosto de mármore tinha ainda os olhos vítreos, todavia marejados e acalentando uma dor maior do que a própria morte. Inacreditavelmente, depois disso, a sombra sorriu.

Quando o silêncio se tornou murmúrio e o murmúrio se transmutou em vozes, a porta do cômodo foi aberta e várias pessoas apareceram, apressadas e lamentosas. Rodearam a jovem e já choravam seu descanso trágico sem mesmo saber como havia acontecido. Gritos e gemidos encheram o ar. As velas dançavam como folhas na ventania. Tudo naquele quadro dolorosamente impreciso estava errado, tétrico, irremediavelmente acabado. Mas, ao mesmo tempo, uma paz aconchegante e cheia de ternura envolvia o rosto pálido da moça no divã e teimava em alcançar cada um dos inconsoláveis que a velavam. E dentre o tumulto crescente, já nenhum olhar de mármore existia, já nenhuma sombra ousava pairar sobre ela.

De quantas maneiras devo dizer que te amo?



O ímpeto me manda escrever. O que posso dizer? Já me faltam palavras... Sim, faltam verbos, advérbios, sujeitos, adjetivos. Falta essência enquanto transborda sentimento... Não sou poetiza. Não sou Sibila, não sou pitonisa.... sou apenas alguém comum que sente comumente...

Tu entendes? Sou tão rasa quanto qualquer veio d’água em que pisas displicente. Sou tão pouco como qualquer arredor sem paisagem. Sou, sim, aquela que se projeta diferente. Sou só isso. Para ser única a teus olhos, meu amor.

Me fragilizo e não percebes. Me dispo e não me queres. Me supero e só então prendes teu olhar em mim. Posto que minha condição – de fêmea, de frágil, de materna – me tira a possibilidade de ser igual a ti.

Sim, submeto-me a tua vontade, meu centro, meu universo... Submeto-me, mas porque quero, à tua ambição, meu senhor. Meu amo, meu anjo... manda e te obedecerei. Eu e tudo que sou, que conquistei, somos teus. Estamos sob tua dominância, essa é nossa vontade! Nosso deleite!

Manda e me desnudo... manda e me deito... Manda, criança, e faço tua vontade sem argumentos, sem perguntas. O que quiseres, me satisfaz. O que pensares, realizarei. Submissa? Sim, eu o sou, eu me faço, por ti, meu desejo!

Sou a submissão em pessoa. Pois que o amor faz doer, faz penar. E se aqui estou é porque te amo, meu dono, meu homem... Se aqui estou é porque és o que há de mais importante pra mim.

Acostuma-te a essa atenção, meu amado. Essa que ninguém te deu antes, que te foi negada. Essa paixão é coisa minha, é dor minha, é por meu querer. Choro por tuas lágrimas, silencio por tuas palavras. Quero apenas que me deixes te fazer feliz.

Entendes? Nada mais quero. Só teu sorriso, teu aconchego, tua presença. Plena que sou de poder amar-te assim, sem máculas. Meu anjo, meu presente, meu... apenas e simplesmente meu...

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Sim, eu vou me apaixonar por você!



Sim, eu vou me apaixonar por você! É fato! É certo. É meu direito amar você. Sim, eu quero me permitir gostar de você. Do seu beijo, do seu cheiro, do seu toque. Que culpa tenho? Se não contar nada, você nada saberá. Então, é segredo meu. Esse segredo que grita que eu te amo! Que eu te quero. Só pra mim... mais ninguém.

Sim, eu vou me apaixonar por você. Por cada centímetro seu, cada gota de suor, cada sorriso... Cada abraço, e na força desse abraço me sentir segura. Frágil que sou, meu amor, quando me oculto em seu peito. Refúgio absoluto de todos os meus medos. Mesmo que você não saiba, sou sua.

Sim, eu vou me apaixonar por você. Por sua beleza, por sua sensualidade. Pelo deleite devastador de ver o gozo estampado em seus olhos... no toque quase doloroso da ponta de seus dedos em meu rosto depois do orgasmo... Ato, desejo, sexo... olhos abertos, olhos nos olhos... Você tem coragem de negar o sentimento?

Sim, eu vou me apaixonar por você. Saudade já arranhando o peito quando você diz que tem de ir embora. E eu, na ânsia de te ter para mim só mais um segundo, deixo que você vá... Rogando aos deuses que você volte, anjo. Que você volte pra mim... por uma vez mais.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Uma Sombra



Tenho saudades de um rosto que já não sei se é real ou fruto de minha mente tão galopante. Tenho sonhado com alguém que não sei mais se conheço ou não. Tenho sentido a saudade de um abraço fantasma. Tenho repentes de lembrança... mas será?

Sei que espero, dia a dia, hora a hora, pela presença desse ser quase imaginário. E os detalhes vão sumindo a cada novo instante. Outros rostos, outras bocas. E a fantasia se esvai qual areia entrededos.

Já não sei se deliro, se invento, se recordo. Só sei que anseio pela presença quase etérea de alguém que me fez feliz. Será que fez? Alguém que me preencheu. Já não sei a qual termo. Alguém que fez a ausência tão presente quanto o sentimento.

Se essa sombra errante realmente me quiser, eu espero pacata, alheia ao derredor. Se essa sombra adentrar o espaço, virtual ou real, aqui me encontrará. Todavia, a espera já me fatiga, já me estenua, eu que sou tão ativa. Culpa minha? Sim, por certo, esperarei.

Mas não posso esperar pra sempre. Vontade tenho, capacidade não. Porque essas outras bocas, esses outros rostos, já requerem de mim mais atenção. E não quero. Minha atenção é toda dessa sombra já disforme pelo tempo. Essa que veio e passou e não voltou pra mim.

Não sou dúbia, nem volúvel. Nunca fui. Mas é que a distância desapega. A ausência desintegra. O silêncio desdiz. E realmente não sei até quando conseguirei esperar que a sombra volte... Se é que existe. Pois que minha imaginação vai tão longe... que seria bem possível criar do vento essa sombra, esse homem... que não vem.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Distância



Há de ser compreensível o sentido do vazio. Há de ser sublimada a ausência involuntária. Há de ser descrito em ode, em verso, em soneto o abandono da saudade. Saudade, sentimento doloroso, prosa sem rima, sem amarra. Saudade que se instala como febre, como praga. Saudade que faz voar a mente incauta.

Sentir dessa saudade é o bem que se torna martírio. É o querer que desfaz-se no brilho tão distante das estrelas no céu escuro. É desejar perto aquele tal que se faz ausente. É ansiar presente a simples consciência do querer.

Paz não rima com saudade, pois que a distância enevoa a mansidão do coração enternecido. Qual destino que brinca com o imaginar alheio. E pensar é desejar mais perto. É querer, por certo, o aconchego do abraço. É fechar os olhos e sentir presente a quem longe permanece.

Sonhar é a dádiva da separação. É sublimar a ausência, é tolher a saudade. Amar, porque é no amor que o sonho permanece físico. Paixão intermitente de desejo, de quereres. Amor que aproxima as almas e faz diminuir o espaço. Só assim se pode almejar ser feliz tão distante.

domingo, 6 de janeiro de 2013

O Frio da Alma



Enquanto a carne descansa no respirar de outro peito, uma luzinha tênue invade os olhos fechados. Enquanto o carinho doce de mãos alheias discorre trilhas nos veios das costas, enquanto a pele arrepia ao deslizar do beijo de outros lábios. Enquanto o arfar feromônico refaz o torpor da fadiga... ainda assim a imagem se forma por detrás das pálpebras cerradas.

E já não vale o encantamento do olhar renovado sobre o corpo nu. Já não vale a plenitude do orgasmo partilhado. Já não vale a intensidade do abraço, não vale a brasa que se resta em suspiro. E os dedos que brincam no transpirar do amante já tateiam a imagem esculpida no lado oculto da mente... outra pele.

Um pedido de desculpas velado pela atenção desperdiçada. Pela incapacidade de dar-se a pleno. Pelo usufruto concedido do prazer estreante. Pois, no lado de dentro dos olhos, paira a estampa daquele que o outro não é. Paira a lembrança da paixão na tentativa do esquecimento furtivo. Paira a saudade de alguém que deveria fazer parte dessa cena a dois.

E todo brilho desinvade, esquiva, arrefece. Como café deixado na xícara. Como o suor que mistura e seca. E o frio da alma contrasta com o calor do êxtase já olvido. Porque o amor furtivo furta o sentimento. Porque é aquele outro amor distante que faz transbordar de graça o coração.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Menino Tolo



Ah, menino bobo. Menino meigo. Bonito como ninguém jamais viu. Menino tolo, que pensa que foge do meu amor assim, errante, livre. Pois que não és mais livre, menino, desde o segundo em que me fizeste perceber-te. Desde o instante em que meu coração parou por ti.

Menino acuado. Com medo de se machucar. Já és meu, menino lindo. Já te possuo. E se não possuo, posso te comprar. Pede, que te darei. Exige, e será teu! O que quiseres, criança, terás! Pois que tenho tudo o que desejas! Basta que te entregues a mim.

Queres a luz da lua? Trarei os raios de prata pra ti. Queres o sol e as estrelas? Guardá-las-ei numa caixa de noite com teu nome! Queres o mar, a areia, as sereias... tudo tenho para te dar, menino bonito. Queres diamantes feitos de rocha cósmica que brilham como teus olhos? Serão teus, meu amor.

Mas, se queres apenas alguém que te ame, anjo caído em meu colo, saibas que tens meu amor plenamente. Tens meu querer, meu afeto. Se queres de mim somente carinho, te darei tudo, te darei leito, deleite, afago.

Quero apenas que confies, meu anjo, que te darei tudo isso por amor. Sem exigir de ti a mínima pena, a mínima gota de atenção. Se quiseres meu mundo, ele será teu. Já é teu! Se quiseres meu sangue, eu sangro por ti. Se quiseres de mim a vida... minha vida já é de tua posse, meu menino.

Mas te decide rápido, anjo. Antes que a dor de não te ter me leve daqui para longe. Pois que dói a tua ausência, criança. E nenhum ouro do mundo jamais te substituirá! Quero que saibas, que acredites. Meu amor é puro, é teu. Nada quero além do teu beijo. Nenhum grilhão irei impor.

És livre, menino tolo, para caíres nas tentações que cruzarem teu caminho. Só lembra de mim ao final de tudo. Porque estarei aqui, a esperar por ti, com meu tesouro pra te entregar. Não tenhas medo de mim. Sou só alguém que te ama, mon ange... que te ama...

Árvore das Fúrias


Como fingir sem confessar? O que dizer para que não saibas, não adivinhes? Que dentro do teu abraço eu sou fraca, eu sou frágil, eu sou fêmea. E só. Que a tua força derruba a minha e me extasia, me desarma, me doutrina. E que, nesse abraço, sou tua de alma e ego. Teu suor é a minha pele. Tua ordem é o meu comando.

Como querer correr, esquivar-me? Se é no entorno dos teus braços que me encontro única. Se tens minha vida inteira encostada em teu peito. E se, quando me prendes assim com força, tornas liberto das fúrias o meu coração.

Como conceber tamanha entrega, tentando fazer com que não percebas, se tudo em mim grita que sou tua? Se, presa assim no teu abraço, eu me abandono e me entrego a ti. Sonhando ficar assim. Eternamente presa do teu querer.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A Guerreira



Derrotar dragões era o mais fácil. Queria ver empilharem as pedras que ela carregava. Intrépida batalha, árdua e constante. Cada uma das luvas de malha de aço já puída, já destroçada. Sim, esse era o verdadeiro trabalho de Hércules.

Nem pensar cruzar o rio das sereias antes de desamarrar o homem sobre a montanha. Aquele cujo pássaro mau arrancava um pedaço do ventre dia após dia. Era uma dança. Driblar o pássaro, esgueirar-se entre os espinhos, salvar o homem e vê-lo regenerar-se antes de o pássaro voltar.

Cada um dos anões em suas funções e com suas armas. Todos derrubados antes de chegar ao imenso portão. Os raios faziam com que as pedras evaporassem. Se não fosse ágil, jamais passaria. Sim, uma façanha e tanto.

Então, o grande mostro de lava. O gigante de um só olho soltando fogos mortais. Mas ela era uma sobrevivente. A valente guerreira que não sucumbiria antes de apanhar o diamante maior. Aquele que o ciclope guardava com a vida.

Sim, uma amazona digna dos livros de Verne. Vezes e vezes a fio desafiando os perigos mais horrendos. Isso tudo, pasmem, antes que o sono venha. Só então a mãe retira o joystick da mão frouxa da menina que sonha com o videogame.