domingo, 24 de fevereiro de 2013

Detox



Quando coisas demais acontecem, a regra é que o universo interno gere certo desequilíbrio. Nos perdemos em busca de eixo, encaixe, foco. Estamos equipados, mesmo que não saibamos, para lidar com a maioria das desjunções e contrapontos dinâmicos pelos quais passamos. Todavia, há aquele momento de desentrosamento conosco mesmos, de sensação de falta de organização pessoal. Parece que perdemos pedaços pelo caminho.

Por conhecimento de causa, posso testemunhar que os acasos não são ao acaso. Quando cacos que você nem sabia soltos começam a cair enquanto você está distraído, é porque algo anterior já estava quebrado. Se muitas partes descolam e estilhaçam no chão, algo vai mal, algo deve ser monitorado de perto. Tenha certeza, as peças estragam, mesmo que tudo pareça firme e no devido lugar.

Do que estamos falando? Da sensação terrível de que você não é mais você mesmo. Que não gosta das mesmas coisas, que outras irrelevantes fazem a maior falta, que aquelas atitudes que você nunca tomaria acabam de escapar das mãos, da boca. Estou enlouquecendo, estou possuída por um mau espírito? Nada disso. É só seu eu se reformulando, tentando recauchutar as peças gastas.

Desintoxicação é a palavra-chave. Antes de tentar colar o ladrilho quebrado da fachada, examine o reboco com uma lupa. Não entendeu? Explico! Desespero por um namorado, um relacionamento? Descubra em qual curva você deixou de se bastar, de se gostar, de se pertencer – que precisa tanto pertencer à outra pessoa para se achar. Tédio, ódio, cansaço no trabalho? Descubra em que momento você deixou de se divertir, de aproveitar o tempo.

Algo que parece saído da boca ou da vida de outra pessoa, uma atitude tão avessa a você mesmo, pode ser um grito de alerta ou de socorro da sua essência real. Não restrinja esse arroubo de mudança. Não adianta querer mudar, não mandamos tanto em nós mesmos. Mas também não funciona tolher a mudança quando ela vem e nos pega de surpresa – e sempre pega.

Olhe-se de frente quando a vontade for dizer “esse não sou eu, não posso ser eu, não me reconheço”. Admire-se por um instante mais – no espelho, de preferência. Talvez, o que você veja não seja um monstro, mas alguém melhor. Sim, eu sei que assusta. Mas, vamos admitir, se você não está feliz agora, o que custa dar uma chance ao desconhecido que habita aí dentro?... Permita-se!

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Devolva




Venho, por meio desta, solicitar a devolução de alguns itens restritos e pessoais que permanecem em poder de sua pessoa. Venho, nesta carta, requerer o que é meu por direito intransferível. Venho, nestas linhas mal traçadas, implorar ressarcimento.

O conteúdo da lista é pequeno, mas o que você levou é caríssimo. Não tem ouro que compre. O que você levou não pode ser dado, doado, emprestado. Foi roubado. Pertence a mim. Fato injusto e inegável esse furto, esse apoderamento leviano.

Ledo tempo aquele em que o presenteei com meus pertences mais íntimos. Esses, não os reivindico. Não os quero de volta. Fique, principalmente, com a gama de pensamentos, de saudade e de lágrimas que dediquei a você. São seus por merecimento.

Também não quero de volta os suspiros tantos e os sorrisos tão poucos. Os beijos, queime-os, se não os quiser. Meu coração, já o resgatei, no exato instante em que o entreguei a você numa caixa de prata e você, sem abalo, o deixou cair das mãos. Meu coração juntei do chão. É meu de novo.

A única coisa que quero – e essa você precisa devolver – é minha alma que ficou presa a você. Essa alma é minha única sobra. Sem ela, não crio, não rio, não vivo. Aceito que você não queira nem a mim nem ao meu amor. Mas sem essa alma, não posso seguir adiante. Preciso dela. Senão por paixão, por compaixão, devolva.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

A Cidade ou Eu




Cheguei de volta à metrópole. Minha terra, minha pátria. Cheguei repleta de amores, de saudades. Cheguei pra recomeçar. Mas, eis que tudo na cidade se diferencia da lembrança. Ou serei eu a vaguear por devaneios inexatos? Quem estará diferente, a cidade ou eu?

Já não sinto o ímpeto desbravador quando lho pela janela e vejo o sol nascer. Já não tenho certeza dos passos que dou rumo ao horizonte de descobertas. Algo no caminho de volta se perdeu. Ou será que foi no distanciamento, na fuga, que me abandonei pelo caminho? Quem deixou de lado o encanto, a cidade ou eu?

Os olhos que agora derramam lágrimas sem sentido diante de um entardecer de domingo, são os mesmos que brilhavam ante os sonhos, as possibilidades. São os meus olhos que choram diante da mesma paisagem. Quem deixou cair meus pedaços enquanto corria ao final do arco-íris? Quem se perdeu, a cidade ou eu?

Brinco e sorrio. Divago pelas tardes dominicais. Troco ideias, preencho espaços. Mas a cidade parece tão grande assim, vestida de mim. Ou serei eu tão pequena que não me caibo mais? Quem errou na medida da alegria, a cidade ou eu?

Ainda quero as mesmas coisas. Mas essas coisas já não são tão caras. Entristeci na ausência? Desconstruí na distância? Quem tem culpa da solidão, a cidade ou eu? Ou seremos nós duas as vítimas daquele que nos rejeita? Será culpa dele, afinal, essa tristeza? Quem esquecerá mais fácil, a cidade ou eu?

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Redundante



Descobri que sou redundante. Quando o tema persiste, ecoo termos, reescrevo o que já disse antes. Engulo as coisas novas porque o objeto da escrita não é novo. Tenho que cuidar isso. Pareço mais superficial do que sou. Demonstro de forma errônea o teor da redação. Tenho duas saídas. Ou faço uma lista de tudo que repito, ou paro de criar pensando nele...

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Autopiedade



Devo dizer que estou bem, então? Devo mentir? Agradaria aos alheios? Por certo que pareço bem, sempre pareço. Pouco me diz a dor do mundo. Não, não me importo. Sou ruim? Pois, que seja. Assim seja! Não aprendi de um dia para o outro a ser insensível, acredite quem quiser.

Mas o fato é que aprendi. Endureci. Agora não sei ser diferente. É errado que eu me preocupe com a minha própria dor? Não, eu não acho. Quem, além de mim, se preocuparia, afinal? Sou aquela que todos procuram. Sou aquela que a maioria teme. Sou a que não precisa de preocupação.

Por quê? Porque estou sempre bem, sou o eterno apoio, a tábua de salvação, a âncora. E é sério que muitos me veem assim. Cansei de tudo isso faz tempo. Ou será que ninguém percebeu? Também dói em mim. Também preciso de ancoragem. Mas, estou bem. Não se preocupe.

Siga seu caminho, não olhe para os lados. Não levante a fronte, ou você pode se deparar comigo. E não seria uma imagem bonita. Ou seria? Não, com certeza você não quer ver a minha face. E eu também não quero ter de sorrir quando você perguntar: “Tudo bem?” Sim, tudo ótimo. Tudo está sempre muito bem. Obrigada!

(Não se assustem, meninos. É só um texto.)

Fugir de Si



A fuga é a pior saída, o mais humilhante dos desvios, a mais sórdida decisão. Fugir é sinônimo de medo, de fragilidade, de inabilidade, para dizer o mínimo. É indicativo de caráter duvidoso, de retidão limitada, de covardia declarada.

Fugimos dos perigos, das ameaças, do que nos fará algum mal. Instinto de preservação. Sobrevivência. Fugimos de situações maléficas, desastrosas, fugimos do que não podemos controlar. Essa fuga é tolerável, combativa, esperta até.

Indizível é fugir da sorte, do momento, da tentativa, do arrependimento. Inimaginável é fugir e si. É desviar dos desejos, dos anseios, simplesmente por temor do desconhecido. Pior ainda, por temer aquilo que se conhece tão bem.

Lastimável a fraqueza humana que corre da própria carência, que se afasta da sombra própria projetada, que prefere não ver a luz na estrada adiante. Triste de se perceber a falta de confiança de alguns nas próprias escolhas, nos próprios conceitos.

De que maneira fugir de algo que trazemos conosco a cada instante? Como nos escondemos do destino, do futuro? Mais nobre seria abrir os braços e deixar-se cair do precipício. A tal dor, afinal, pode não ser tão terrível assim. Concordam?

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Arranhaduras



Vivemos como queremos. Fazemos coisas sem pensar, por hábito ou demência. Por provocação, flagelo. Cada um tem seu anjo e seu demônio a perturbar a mente, a impelir vontades. Mas somos responsáveis por todas as nossas arranhaduras. Levamos o dolo ou os louros de cada ato cometido, de cada crime cotidiano. E insistimos.

Sabemos, quase sempre, quando estamos errados, quando a ação deve ser repensada. Paramos? É claro que não. Somos seres teimosos e exagerados. O que fazemos, fazemos muito. E as consequências reverberam no dia seguinte. Estragam o paladar, pesam na consciência. Vergonha que não é alheia, é bem pessoal. Ainda assim, insistimos.

Chutar balde ou cachorro morto é uma prática comum. Investimos em machucados e machucar-nos torna-se um vício. Precisamos da dor para viver. Precisamos da culpa. Mas não para tomarmos outro rumo, repaginar-nos, apenas para nos fazer companhia enquanto não chega a hora fatídica de outro açoite.

E isso perdura por vidas... até que o corpo adoecido, a sensatez despedaçada, ou até mesmo o olhar triste de quem vemos a nos ver a cada recaída cobram uma mudança, um qualquer remediar, um melhoramento. É nesse segundo que percebemos que os arranhões infeccionaram, gangrenaram. Que precisamos de amputação.

Tolo é aquele que se acredita imortal e evita olhar as próprias chagas no espelho. Dorian Gray, como disse Roberto. Mas, nesse caso, somos nós a pintura apodrecida. Resta saber se temos ainda força e coragem para aparar as unhas, para lavar o rosto e dar a cara a tapa. Resta saber se queremos ou merecemos a cura.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Reflexões Sobre Alegorias



Sendo a época propícia a releituras – pois Carnaval é pura filosofia (!) – estreitamos olhos e enrugamos testas a pensar no ócio do óbvio. Ok. Parei de divagar. Sinto – e não sei se sinto sozinha – uma necessidade pungente de agregar conceitos a fatos insólitos.

Algo muda a cada instante em nós, seres viventes. Mudamos, revestimos, repensamos. Somos mutantes por natureza. E o estagnado sofre as consequências de não acompanhar as transformações. Transmutamos tudo. Nós mesmos, inclusive.

Um bom exemplo é a batelada de promessas de ano novo que a maioria dos mortais costuma elencar. Queremos melhorar, queremos sublimar. Ou, ao menos, almejamos chegar mais perto daquele ideal de perfeição. Claro que essa perfeição só habita a mente deturpada de cada indivíduo.

De posse desses conceitos de transladação, reformulamos vidas inteiras. Abdicamos de fervores, rotulamos intempéries, abrimos mão de preceitos básicos em prol da dita repaginada. Esquecemos, porém, do que nos é caro, do que nos é indispensável. Somos únicos em nossos defeitos, nada mais nos faz individuais.

Antes que possamos nos dar conta, ruímos as muralhas dos novos planos. E nos maldizemos pela falta de persistência. Realmente, não percebemos que é apenas nosso eu íntimo gritando que a mudança é inválida. Para que ser igual a todo o rebanho, afinal? Para que balir no mesmo tom?

Desse arrebentar de intuitos é que advém a cruel realidade. Somos o que somos. Não vamos mudar. Não somos alegorias carnavalescas a adentrar a avenida sob o ritmo frenético dos atabaques. Somos apenas errantes na multidão. Acostumem-se! Tenham orgulho de cada erro, de cada defeito crônico, de cada vergonha pessoal ou alheia. Isso, meus queridos, é viver!

E a vida nada mais é do que esse dia a dia regrado, desmazelado, impróprio, que nos impomos a cada amanhecer. Aceite cada detalhe errático, cada verniz descascado. Aceite-se... Sim, é complicado. Mas esse que você vê na fotografia, é realmente você. Mesmo que você não aprove a imagem.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Experimentação de Mim



Estou experimentando uma nova de mim. Algo tão novo que se mescla com a expectativa mundana do comum. Pela primeira vez, talvez, eu seja igual a todo mundo. Experiência estranha para um ser estranho. Mesmice, estagnação, cópia... mas tudo tão inovador, tão colorido.

Por vezes, juro que não me reconheço no espelho. Juro que aquela ali me olhando não sou eu. Mas sou. Ela é. Alguma parte de mim que dormitava, sem pressa alguma de vir à tona. E, para essa nova, sorriem rostos que antes franziam cenhos. Para esta, abrem-se portas, desgastam-se elogios, surgem vozes de conversas fúteis, agradáveis.

E o entorno se torna mais amplo. Tudo reorganizado no espaço ao redor da novíssima figura. Boca pintada, saltos nos pés. Pernas à mostra como se o foco do Eu fosse a imagem, a matéria recomposta, compartilhada com o olhar do meio. Aceita!

Ainda não consigo conciliar as duas de mim. Essa brilhante de vestido, a outra encapsulada no ostracismo do intelecto. Ainda não entendo porque o mundo acha que só a feia pensa... Será por esse mar de futilidade que abarca a beleza em si? Será que estou me perdendo sem saber...?

O fato é que falta. Eu me faço falta dentro desse novo corpo. Tenho de botar conteúdo nessa nova figura. O quanto antes, pois a recaída estreita de perto... Ainda não decidi se me importa mais a importância que tenho na casca maquiada e florida, ou se o desdizer de mim, de meu saber, me dói mais.

Rápido! Alguém diga que estou linda, ou corro o risco de voltar a raciocinar!!!

Falta Tua



Eu só queria deitar a cabeça no teu peito e esquecer da vida. É pedir muito? Um momento de aconchego, de inércia. Um momento pra me lembrar que também posso ser frágil. Que também posso ser dócil.

Queria só deitar a cabeça na curva do teu ombro e me sentir segura, abraçada, protegida. Coisa boba de menininha fútil? Pode ser. Que seja. É bom. Pronto! Só deixar que tu me abraces e abdicar do mundo.

Mas teus braços estão tão longe de mim... que sinto saudade desse teu afago, do teu cheiro e da tua força a me prender em teu abraço. Como se não quisesse que eu fugisse de ti... Ironia, pois és tu quem foge, meu amor, e me deixas solta nesse vento de chuva.

Daria qualquer coisa para estar inteira dentro do teu abraço. Para repousar meu ser em teu todo. Para me despir de mim, de minha força, de meu comando, e te deixar reger minha orquestra.

Não. Não sou submissa. Sou fêmea, preciso de afago vez em quando. Necessito cuidado hora ou outra. Quero poder descer do salto e me perder de mim e viver por ti, meu anjo, por um instante concedido. Bastaria!

Saudade, criança. Muita mesmo. Perdoa, não posso evitar. Não posso conter. Não consigo... ficar tanto tempo longe assim de ti. Tem pena de mim, que te quero tanto... Eu que sinto a tua falta, mais que a minha. Saudade, só isso...

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Crônica Triste



Tarde se faz a hora arrastada. Tarde se nota no olhar cansado. Tarde da noite, do ser, do pranto. Entardecer que não tem estrelas bordadas no manto. Tarde é a medida do tempo que passou sem fazer barulho. E que deixou por rastro apenas o calar das horas.

Rastro sem mácula, sem forma, sem conteúdo. Ranço do tempo, desse tempo sem destino. Cântico de mortalha, ladainha de carpideira perante o caixão aberto. O túmulo. Esse é o tempo que se faz tão tarde, tão antes.

Ilusória essa veia de medir tal tempo, tentando alcançar os minutos que escapam do presente. Aridez, certeza ausente. Gosto de fel e morte a empapar a língua. Resta esperar o final iminente da trovoada após o relâmpago.

Som de tragédia, de rufar de tambores. Som de dissabores rolando pela garganta. E o pranto também espreita o tempo. Esse que engole o choro para se fazer de forte. Esse que chora por dentro ante o temor da morte.

Tarde se faz no mundo escuro da vida que passa. No muro que cai aos pedaços, envelhecido. Tarde assim, no paraíso perdido, esse que é feito de sonho, de desejo, de planos... Cálido acalanto do desengano. Só a voz da ruína a lamuriar o fardo.

Enganado está, pois, aquele que espera por um final feliz. Equivocado e delirante, esse tal amante, ambicionando o derradeiro beijo. Já que não há mais desejo, o coração, por si mesmo, se cala. Já não grita, não mais implora. Apenas desiste. E aquele rufar de tambores é somente ruído.

Zumbido que incomoda tímpanos. Barulho do ocaso do tempo. E volta esse tempo a nos reivindicar virtude. A dizer: “Não te ilude. Tu és apenas mais uma.” Uma dentre tantas almas que ousam sonhar o impossível. Tristes de nós, crônicas ultrapassadas, invisíveis.

Apagamos a chama da vela acesa. Deixamos de lado a vaidade e a paixão. Cremos e descremos na valentia da vida, essa sofrida, sem trégua, sem dó. E tudo termina num pestanejar tristonho, pois que é findo o sonho. Esse sonho de amor que nos fez viver até então, até o não, até o fim.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Blaue Augen



Parece pieguice falar dos teus olhos. Parece pouco, brega, obtuso. Parece pobre. Parece falta de idioma, parece resto. Parece normal, trivial. Parece óbvio. Sim, parece. Mas é porque ninguém mais consegue ver de frente esse espelho azul, essas duas gotas de safira, esse errar de firmamento que faz brilhar teu olhar.

Duas fendas de azul profundo, de puro anil oceânico. Nem as mais densas nuvens tiram dos teus olhos esse céu escancarado a olhar para tudo, para todos, menos para mim. Ai de mim, que me perco no celestial desse teu olhar. Sem que percebas, é esse índigo sereno que me hipnotiza.

Mar revolto, onda mística. Desfaleço quando, além de tudo, tens guardado um sorriso a estreitar pálpebras, a delinear contornos. A tecer sobre quem te vê esse véu célico e morno. Pálida solidão essa minha, que passa despercebida por teu olhar. Esse que acalenta o mundo e deságua na mansidão do infinito.

Quem me dera ser estrela a flanar no horizonte dos teus sentidos. Quem me dera ser um cílio, a abraçar-te a cada piscar. Quem me dera ser o alvo desses teus olhos de piscina por um instante e mergulhar sem medo de me afogar em ti.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Eu ainda não encontrei



E o andarilho da noite que habita em mim ainda procura paragem, parada, sossego. Aquele mesmo de há vinte anos. Aquele que vagava solitário desbravando escuridões. Esse ainda anda perdido, jogando com feras... e vencendo a cada partida.

Mas o andarilho em mim está cansado de andar. De buscar o inevitável, de evitar a lástima, de lastimar o impossível. Intocável é o sonho do descanso, do aconchego sereno nos braços seguros do destino certo. Incerto esse buscar. Vagar eternamente, esse é o grande temor.

Pois que esse ser sem amarras quer amarrar-se em qualquer ancoradouro de sonhos. Quer, por fim, descansar os pés doloridos, esses que vagam há décadas sem lugar no mundo. Sem espaço seu, sem compaixão. Quer fincar raízes que nem sabe se tem. Quer descobrir se as tem, as raízes.

Esse andarilho, que por tantos e tantos descaminhos cruzou mares, desertos, montanhas, abismos, quer simplesmente parar num olhar, no fundo da iris... no semblante de quase sorriso de alguém dizendo “fica”. Esse é a grande meta de aportar, de pertencer, de estar.

Mas o andarilho em mim ainda vaga, mesmo que cansado de tanto ver mundo afora. Vagueia em busca do colo, do calor, do claustro. Vagueia enquanto aquilo que, em mim, eu busco ainda não for encontrado. Ainda, pois sei que está a um passo de mim.

Mas andarei, ainda procurando, eu e meu andarilho. Gritando por aquele nome que ambos não entendemos. E a nave não partirá enquanto não chegarmos, nós dois. De mãos dadas e corações abertos, derramando ânsias e bênçãos, derramando o amor que guardamos durante nosso andar...

ANDARILHO



Eu ando por ruas perdidas
Jogando imagens com monstros
Devoradores de sons
Procurando o caminho da partida
Ou a chave dos sonhos da nave
Que desperta mil dons

Eu ando gritando um nome
Que eu mesmo não entendo
E procuro, reparando nas sombras
À noite, um brilho some
E somem razões
Esquecidas, perdidas
Em fendas e dobras

Eu ando
Como andaram os homens
Eu ando
Como eles já não andam mais
Procurando
Como procuraram um dia
Eu ando
Procurando paz