quinta-feira, 28 de março de 2013

Não Me Ame



Não me peça pra ficar. Não vou deixar. Você pensa agora que seu lugar é ao meu lado. Mas um dia vai acordar e já não será assim. Vá por mim. Não é o certo. Vejo a mim mesma em seus olhos e o que enxergo não é quem sei que sou. Sou tão menos do que você me faz, não sou digna de um querer tão doce. Creia, não valho a pena.

Não me peça pra ficar. Não quero ver você sofrer. E você vai sofrer, acredite. E eu sofreria pelo fato de não poder ser aquela que você quer, que você merece. Não estou à altura de sua ambição, de seu afeto. Sim, sou egoísta. Não fui responsável por seu encantamento, não o serei por seu desencanto.

Eu nada fiz, você sabe. O que você viu em mim, ia além de mim. Você me idealizou, me eternizou. Você se apaixonou pelo que achou que eu era. Mas confesso que gostei dessa atenção. Confesso que me aproveitei desse gostar crescente que aflorava em você. Só não esperei que você chegasse tão perto. Decerto que subestimei seu amor.

Agora, vendo você aqui, tão exposto, tão frágil, não posso deixar que seu sentimento se torne seu martírio. E, ouça o que eu digo, acontecerá. Porque não sou essa que você desenha, porque sou péssima. Sou a última das criaturas, sou má, sou fria. Sou de outro que também não me quer amar. É isso, simples assim. Não vou deixar você chorar por mim.

terça-feira, 26 de março de 2013

Descarinhos



Sou bem mais do que gritam meus gestos ao mundo. Sou bem menos do que realmente valho. Sou o aspecto fálico, flácido, desfalecido. Sou concepção e padecimento compulsivo. Sou o misto da força e da sedução, ambas efêmeras. Tenho alguns sentimentos em mim, em meu íntimo resguardados. Tenha medo, sim. Sou quase humanidade, mais que pessoa.

Sou o ser que se entrega sem modéstias, sem modismos. Sou quem cede o corpo a outro corpo em troca de um carinho. Descarinhos, descaminhos, desafetos. Sou pele e espinhos, pois minhas pétalas já as perdi. Foram-me arrancadas. Ou me desfiz delas por serem bonitas demais. E eu não creio que mereça essa beleza.

Sou aquilo que me querem dar, sou quem troca lágrimas pelas migalhas. Sou mendicância, resignação, contentamento métrico. Tenho o querer caótico, embrutecido pelos desencantos. Sou amores não florescidos, sou lamento de fagulhas apagadas. Sou desigual no intransigente caminho de amar. Sou desamor, desengano.

Sou simplesmente alguém que precisa de abraço, que esmola um afago. Sou essa criatura cinzenta que anda só no caminho despido de cores. Sou alma alquebrada, sou ego e desintegração. Sou o que existe de feio em torno dos outros, dentro deles, em você. Sou o que você seria se não houvesse esperança.

Sou desespero, sou desenlace, sou morte. Sou o ranger cármico das correntes que arrasto. Sou forte e sou frágil. Quebro fácil, me colo os cacos. Ando tropeçando nos restos de vida que se vão pelo chão. Sou assim, o oposto do que você quer ver. Mas sou eu quem entenderá quando seu coração sangrar. E, ainda assim, você não me dará a dádiva de seu sorriso.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Terezinha Pós-Moderna



“Terezinha de Jesus de uma queda foi ao chão. Acudiram três cavalheiros, todos três chapéu na mão.”

O primeiro foi impacto. Foi o beijo na calçada escura. Foi paixão arrebatadora. O primeiro foi moicano, bandana, alargador, tatuagem! O primeiro foi puro fogo, testosterona. O vigor da juventude. Impulso, suor e pêlos. Foi violência e ardor. Mas também foi meiguice, segurança, foi docilidade e susto. O primeiro foi tudo o que ela queria. Um misto de homem e menino, um mistério denso, delirante. E foi medo, foi arisco. Deixou um rastro de saudade e lágrimas. Deixou o gosto de cerveja forte. E ela chorou pela ausência ele.

O segundo foi delicadeza. Foi o reconhecimento, o interesse, a lembrança. Foi o gostar suave, desvendado aos poucos. Foi palavra, foi imagem, criação. Foi puro carisma, afinidade. O aconchego da maturidade a conflitar com a alma juvenil. Foi decência e amizade, foi aceitação. Mas também foi impossibilidade, foi barreira imposta e intransponível. Um doer-se de mundo, de experiências inexatas. E foi intocável, foi inacessível. Deixou o gosto do beijo não partilhado, deixou apenas tristeza pelo que poderia ter sido, pela cumplicidade não dividida. Deixou aspiração. E ela decidiu não chorar pela distância dele.

O terceiro foi corpo. Foi pele de seda, apego, carne. Foi o desejo aflorado, saciado, envolvente. Foi silêncio, atitude, magnetismo. Foi puro sexo, redenção dos sentidos amortecidos. Foi aventura, motocicleta, vento. O calor da cobiça a incendiar o ego. Foi luxúria e soberba. Mas também foi aconchego, mansidão, respeito. Um querer sem consequências, uma ausência de cobranças, um faltar de compromisso. E foi delicado, saboroso, foi apenas prazer. Deixou um gosto acre da falta de sentimento, do anseio satisfeito, nada mais. E, por ele, ela não chorou.

Ao fim do triângulo, cada qual em sua conta, cada um com sua quota. Ao final dos três cavalheiros, a moça chorou por si mesma. Pois que unindo dos três o melhor que traziam, teria para si o homem perfeito. Todavia, apartada de todos, ela lamentou o resultado, o desafeto instaurado. A qual o coração escolheria? E quis para si apenas um deles... E quis para si o único que não tinha esquecido, que não tinha contido, que não tinha podido, que não a tinha amado...

A moça quis a força plena da paixão espontânea. Sentiu falta da voz ao alcance do ouvido, e a vontade de mais um abraço, mais um beijo apenas. Mais um pouquinho daquele mistério que não era dela. E que, talvez, jamais fosse. Era esse a quem queria. Era dele aquele amor. Por isso, seguiu sozinha, Terezinha!

domingo, 24 de março de 2013

Devo Lhe Dizer



Quanto tempo passou desde que conversamos pela última vê, não é mesmo? Quantas coisas já aconteceram, quanta água rolou debaixo da ponte. As pessoas ainda perguntam como eu estou. Eu estou bem. É verdade. Tento responder sempre com o sorriso mais espontâneo, para que sorriam de volta e relaxem, evitando mais perguntas tão inúteis assim.

Mas devo lhe dizer que estou realmente bem. Não precisa se preocupar comigo. Tenho tomado, ultimamente, minhas próprias decisões. Decido acordar e sair da cama todos os dias. Decido usar outras roupas – andei gastando dinheiro nisso – que não aquele uniforme doméstico que você conhece tão bem. Tenho tomado a decisão de me enfeitar um pouco, emagrecer, comprar sapatos. Salto alto, acredite! Tenho até me decidido a me achar mais bonita no espelho.

Essas minhas decisões podem parecer pouco sérias, mas estão ajudando muito. Tenho cuidado da casa com mais afeto. Tenho me dado passeios ao ar livre de presente. Pensei em começar academia, pensei em parar de fumar. Todavia, essas são transformações grandes demais ainda. Com o tempo, com o estímulo certo, quem sabe.

Devo dizer que passei a dar valor às pequenas coisas. Os dias nublados ainda me entristecem, mas as manhãs de sol já me fazem sorrir outra vez. Embora as noites estejam sempre mais frias, estou lidando com isso também. Já durmo uma noite completa, já não acordo procurando por você. A televisão ligada faz companhia, sempre foi assim, afinal. Ainda não gosto do escuro, apesar de não ter mais medo dele.

Ando falando mais. Ando falando sozinha. E nesses diálogos solitários, devo lhe dizer que converso com você. Digo coisas que deveria ter dito ao vivo. É um exorcismo diário, eu quero crer. Agindo assim, meio malucamente, sinto que mando alguns fantasmas embora. Mas, não fique preocupado, não pretendo tornar essas conversas reais. Realmente não gostaria de ouvir suas respostas. Fique tranquilo.

Tenho me dado outras chances de ver o meu dia a dia com outros olhos. Tenho dado oportunidades a mim mesma, e até tenho me forçado a ir a lugares, sair sem companhia, aproveitar da ausência para estar mais comigo. E não é só isso. Tenho encontrado gente diferente, rostos novos. Acho até que fiz alguns amigos. Não recordava o quanto é divertido conversar sobre assuntos que não me lembram nós dois.

Sim, tenho saído com algumas pessoas também. Não estou procurando substituir você. Tanto porque você já não está aqui para ser substituído. O fato é que, em algumas vezes, eu me sinto bem com essa atenção alheia. Não creio que deixe de procurar seu rosto nessas novas companhias. Pelo menos, não agora. Mas já consigo ver melhor a mim. E acho até que posso voltar a ser uma pessoa interessante, caso me permita de verdad.

Enfim, depois de tanto tempo, devo lhe dizer que estou bem, sim. A saudade ainda pesa, a solidão ainda dói. Faz falta não ter mais ninguém de que cuidar, senão eu. Mas estou bem. Descobri o quanto sou forte e o quanto anda tenho de firmeza de espírito, de motivação. Está tudo meio amortecido, mas venho exercitando esses músculos mentais a cada novo dia. Sim, eu vou ficar bem. Vou sobreviver – a despeito do que todos, inclusive eu, pensavam – sem você na minha vida.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Diálogo das Flores



Havia uma bela orquídea, desenhada de roxo e branco, delicada e quase etérea, a esperar em sua linda caixinha enfeitada. Ao lado dela, sobre o balcão da floricultura, um singelo vasinho de violetas foi deixado. A orquídea mediu a violeta folha por folha.
– Olá, flor tão linda – disse, amigável, a violeta – Temos a mesma cor, nós duas.
– Oh, não, querida – rebateu a esnobe orquídea. – As minhas tonalidades são únicas. Eu sou uma flor rara.
– É mesmo? Eu não sabia. Muito prazer em conhecê-la, então. Fico feliz de ter sido colocada a seu lado.
– Decerto que isso foi um engano e já irão levá-la.
– Por que diz isso? – intrigou-se a violeta – Estamos ambas esperando quem nos queira.
– Sim, certamente. Mas podemos dizer que não esperamos pelas mesmas gentes.
– Como assim?
A orquídea sorriu, disfarçando o desdém.
– Eu sou um presente caro. Por certo, vou adornar não apenas quem possa pagar por mim, mas quem me mereça de fato. E você, não que isso seja ruim, é claro, adornará um lugar comum, quem sabe um peitoril ou bancada. Entenda, se somos assim, tão diferentes, precisamos ficar apartadas. Quem irá me perceber se você, em sua mesmice, estiver ao lado, atrapalhando a minha beleza?
– Bem, me desculpe – disse a violeta tristemente. – Se eu pudesse, deixaria este lugar para não estorvar mais. Mas não posso. Talvez, alguém me compre rápido. Não sou cara ou rara. Qualquer um pode pagar por mim.
– Sim, nisso você tem razão. Ou alguém virá e levará você para uma das estantes.
– Enquanto isso, nada posso fazer senão esperar. Nunca se sabe quem vai entrar na loja.
– Só sei que, quem quiser me ganhar, tem que ser mais que o óbvio. Pena, as pessoas são óbvias... mostram-se na ausência. Preciso de mais, preciso ser especial... que pena que ninguém consegue me fazer especial como eu mereço.
– Ninguém consegue? Como assim?
– Ai, já estou cansada dessa caixinha – suspirou a orquídea. – Faz tempo que estou aqui a esperar que entre alguém que me mereça. Você sabe, os especiais.
– Faz quanto tempo?
– Um dia ou dois. Por quê?
A violeta ofereceu à orquídea um sorrisinho triste e nada mais disse. Deixou que a bela falasse o quanto quisesse sobre suas qualidades e diferenças. E o tempo foi passando. O dia foi passando. Com o cair da tarde, a orquídea parou de falar. De seu vasinho com terra fofa e água, a violeta chorou. De que adiantava tanta beleza, de que adiantava ser rara, ser cara, e viver um dia apenas numa caixinha enfeitada? E se as pessoas não óbvias não apareciam... morrer assim, ainda tão linda.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Um Ramo de Alecrim



Quem é tão especial quanto deseja ser? Quem se vê como é e quem se imagina? Quem de nós idealiza-se no olhar do outro? Quem, dentre todos nós – sonhadores –, está realmente preparado para saber-se menos do que gostaria?

Só sabemos que a opinião alheia importa quando esse alheio é tão próximo que nos fere o ego. Só nos sabemos insossos, comuns, quando esse mesmo alheio não nos vê. E, se vê, não parece admirar como deveria, como poderia, como queríamos... De quem é o erro? Daquele que vê ou daquele que é visto?

A florzinha de alecrim que afoga ao lado da rosa sabe o peso de ser um ser mediano. Ainda assim, a flor do campo insiste, resiste, está lá, dourando qualquer gramado que lhe permita existir. Sombreada e esquecida, erva daninha no matagal. Quem sabe, nem a flor se saiba menos linda, nem o campo a veja como é. De qual dos dois é o erro?

O mais triste é que saber-se especial não significa sê-lo. Triste é não ter em si – em mim? – o poder tão cobiçado do encantamento, do arrebatamento, do causar arrepios. Desejar sem ser desejado. Obscurecer diante do brilho não refletido. Não fixar no olhar daquele que deveria – deveria? – nos ver como diamante, supernova!

Algo de prosaico em nós nos apaga. Algo corriqueiro, banal... nós mesmos? E nos pegamos com inveja de desenhos de super-heroínas. E nos pegamos com a soberba desterrada, arrasada, silenciosa... E nos pegamos desejando um segundo olhar, uma segunda opinião. Descrédito? Não. Talvez a busca pela aceitação roubada, pela ilusão desfeita.

Talvez, tudo não passe de uma vontade inata de ser especial para alguém. Talvez, tudo se resuma a causar nesse alguém o mesmo impacto que ele nos causa – sem saber, quem sabe. Talvez, tudo isso não ultrapasse o egocentrismo desmazelado de quem – eu? – ainda não consegue conviver com a própria banalidade. Ou, talvez, o alheio simplesmente não goste do que vê...

quarta-feira, 20 de março de 2013

Outonos



A lareira espera. Ainda não é momento. Ainda não é certo. Somente uma brisa mais fria, um luminescer de nuvens pálidas. As flores deixando de colorir lá fora. E, aqui dentro, chamas apagadas. A lareira e o peito vão esperar...

O vinho, a castanha, o cobertor. Tudo aguarda enquanto as árvores se vestem de plátanos. Manhãs frias, tardes chuvosas, noites de estrelas. Poucas roupas, muitas roupas... cinza e nevoeiro. Ainda não é certo, ainda não é o momento.

Tempo calmo, de ter calma, de livro e vinil. Tempo de suspiros, de janelas embaçadas, vida embaçada. Tempo sem vida, não é o momento. Hibernar ainda não. Fugir, ficar, deprimir, reprimir. Buscar aconchego ainda não é certo.

Destoa a vontade do abraço, a necessidade do abrigo. Solidão combina com suspiro e chuva. Outonos sem lenha crepitando, sem dormir de conchinha. Hora de guardar o coração e aguardar invernos... esperar que ele, quem sabe, se decida... Mas o certo é que não é certo. Não é momento... de ganhar amor.

Eu que sou Estrela



Não te tenho por perto e já sinto tua falta. Sinto falta de algo que só tu tens. Um quê magnético, imantado. Será que tens? Será que me percebo em ti, e só? Sim, questiono a cada instante, se te percebo só a ti ou se me significo no que és, no que não fui. Será?

Mas o que fui, o que me tornei, é tão diferente de ti. Tão apartado de teus desejos e conquistas. Se me reparo no teu ser, é porque te vejo – e só a ti – antes de mim. Vejo quem és. Será que enxergo bem?

Desvendar uma pessoa é tão complexo quanto desmembrar qualquer roteiro. Decupá-lo quadro a quadro! É definir o personagem que não é ficcional. É discorrer sobre a alma que, por si só, se eleva por sobre a compreensão mundana.

Um criador reconhece outro, um ficcionista se vê no espelho. Mas, mais além, quero perceber de ti a integridade de espírito. O que te dói, o que te trava, o que te alimenta. Quero ser – pretensiosa que sou – esse alimento d’alma... Permites?

Quero mais que uma biografia. Quero muito além do que os meros mortais dispõem. Quero ser única na tua arca divina. Quero ser a bruxa de teu romance fantástico, o robô, a ninfa, a musa... Quero ser parte de tua criação. Se deixares, serei mais.

Serei a deusa que desce à Terra para deleitar-se em teus sentidos humanos. Serei a bárbara a empunhar espadas e a lutar por tua atenção. Serei guerreira, maga, fada. Diz como me queres e serei tua criatura, tua... só isso.

Pois que tu és o criador absoluto de meu destino. Dá-lo-ei inteiro a ti. Eu, que sou estrela, que sou divindade, Calíope. Eu que me entrego a ti para ser redesenhada, roteirizada, dirigida... recriada... E a pergunta permanece... Queres?

terça-feira, 19 de março de 2013

Neve ao Luar



Quando neva não tem lua. Mas a lua está lá, vendo a neve planar. Como de uma janela do décimo andar sobre o abismo da cidade, como assistir o chuvisco por sobre as luzes. Quase dá pra ver a lua. Quase dá pra ver quem está lá embaixo, ensopado, enregelado, fugindo da tempestade. Quase dá pra ver um rosto...

Mas falta a lente, falta o olho, falta descer ao abismo pra ver esse rosto de frente. De perto. Falta nitidez, alcance, foco. Falta sair na neve, na chuva, falta deixar-se encharcar num chafariz num dia de vento. Falta clareza, claridade, falta o raio de sol mais que a luz do poste pra iluminar a descida. Falta coragem...

E onde falta ímpeto, sobra o sopro do sul, gelando os ossos. Sobra o frio da covardia que corta como faca afiada as arestas da fantasia. Falta tempero, sobra desgosto. Sobram restos intocados de goles de vinho barato. Sobram sobre a mesa as taças sujas diante da janela vazia de onde não se vê a lua. Sobra vontade, falta o beijo de um filme antigo...

Assim vai seguindo o jogo do tempo, passando dias, cruzando noites. Insone e distante. Vendo a neve a cair invisível, pois que neva só dentro de cada alma sozinha. E todas são, todas estão. Desacompanhadas na contraluz da noite sem lua. Mas a lua está lá. Acima do vento, do chuvisco, do chafariz, do décimo andar. Só que também a lua está sozinha. E neva...

sexta-feira, 8 de março de 2013

Dia Internacional da Mulher: uma paródia



Aconteceu, muito tempo antes de nós, uma luta de classe e de sexo que determinava que uma mulher, por ser inferior ao homem, deveria trabalhar mais e ganhar menos. Brigas e perrengas várias mais tarde, determinou-se que o trabalho seria igual para os dois sexos. Uma mentira descarada, mas deixe estar.

Apesar das vitórias feministas obtidas desde o voto feminino brasileiro, em 1932, ainda revogo o fato de comemorar o dito 8 de Março como me dizendo respeito diretamente. Entendam: a comemoração, não o sentido. A comemoração diz respeito a “louvar” a mulher em um dia específico, dando presentes e fazendo homenagens. O sentido diz respeito ao descaso, omissão, preconceito e sexismo os quais enfrentamos, nós mulheres, diariamente.

Sou da geração que não precisa mais ser feminista. Isso não é uma afronta. É a realidade. Hoje, beirando os 40 anos, sou mãe, mulher, profissional, empresária, livre, respeitada, formadora de opinião, independente. Sou o todo que qualquer homem deve ser. E sou mais. Sou responsável pela integridade de uma vida que eu mesma gerei e pus no mundo. Outra mulher forte, diga-se de passagem.

Não preciso ser feminista, pois as que vieram antes de mim me deram o direito de simplesmente viver quem sou, minhas necessidades e meus arroubos. Se sou tudo o que sou, é por elas, as que lutaram antes de mim. Hoje, comando homens sem o menor preconceito. Determino o que é e o que não é em minha vida pessoal e profissional. Isso tudo, só pude realizar porque muitas sofreram por mim, antes.

Se a estas louvássemos em 8 de Março, eu aplaudiria. Se cada profissional (feminina) do mundo lembrasse que só está lá porque Simones e Virgínias padeceram na luta, tudo seria mais perfeito. Mas não é assim. E ainda hoje, por me manifestar do patamar no qual me encontro (e que não é nada perante muitos), sou rotulada de antifeminista, de pró-sexista, de vendida ao mundo masculino.

Entendam. O “mundo” no qual eu vivo, não é machista ou sexista. Porque eu sou mulher! E sou eu quem manda, quem escolhe, que grita mais alto. O mundo em que eu vivo é aberto a todos os que pensam, que existem racionalmente e que não se perdem em firulas preconceituosas. Pois, como vi num post do Facebook dia desses, todos vocês, homens, nasceram de um útero feminino (redundante isso). Quer vocês admitam ou não.

Então. Viva o dia da mulher, seja ele qualquer dos 365 disponíveis (ou, como penso, todos eles). Lutemos sempre por direitos, por igualdade, por justiça. Não apenas por nós, mas por todos os que são rejeitados pela dita maioria dominante. Lutemos pelo fim de qualquer e toda violência. Se nos compadecemos de animais espancados, que dirá humanos, não interessa o sexo.

Somos mais fracas que nossos agressores? Fisicamente, sim, algumas de nós. Não quer dizer que sejamos sacos de pancada. Não quer dizer que não tenhamos poder de revidar. Somos mais e melhores, pois somos nós que botamos esses tantos homens na terra. Resta-nos o poder de doutrinar cada um desses propensos machistas. Afinal, nós é que sabemos por nossos filhos. Estou errada?

quarta-feira, 6 de março de 2013

Minha Criança Dorme



Minha filha adormece tão inocente, tão autêntica. Adormece no justo sono dos puros, no descansar daqueles que, livres de máculas, ainda não cometeram pecado. Minha criança dorme na paz do reino dos anjos.

E eu aqui, velo por ela sorvendo os venenos dos males do mundo. Eu velo o sono infantil sabendo das dores que a vida ainda vai fazer surgir. A perda e a busca, o flagelo necessário. O endurecimento. O crescimento.

Velo minha menina sentindo todos os rancores rondarem. Rancores que anda não são dela, mas que eu não posso impedir. Pois ela, tão linda, tão limpa, terá de enfrentar cada bicho-papão, cada fantasma. E vencerá. E vencendo, crescerá forte, madura.

Todavia, choro pela perda da imaculada inocência de agora. Porque, quando o mundo começar a ruir – e vai ruir –, só ela será capaz de reunir e colar seus próprios pedaços. Eu apenas rezo aos deuses que o fardo dela não seja como o meu. Que não seja grande demais. Que não a faça perder esse “querer viver” que, nela, me faz sobreviver ainda.