quinta-feira, 25 de abril de 2013

Delírio



Mais uma noite que sonho contigo. E já não sei se sonho, pois acordo em teus braços e me pego sozinha. Algum canto em minha mente te projeta de tal forma, que minhas mãos quase alcançam tua pele invisível. Já não é sonho, é delírio.

Não sei se te amo, mas o desejo que tenho por ti é tanto que me escapa. Sai pelos poros. Já não guardo o pudor do olhar. Miro-te desatentamente, alheia e despreocupada das percepções ao redor. Teus traços preenchem meus olhos. Teus olhos quase negros, vez em quando nos meus. E o mundo amortece.

Paixão talvez não seja. Romance muito menos. Mas o que será então esse devaneio, esse sentir-me sorrir mais quando posso erguer minha mão e te alcançar? E estás tão perto de mim que te sinto respirar. Conheço teu perfume. Rememoro cada dobra da roupa que não posso tirar.

Fala-me o que é essa tormenta que acalma, o que é esse alívio que me dá quando te vejo sorrindo. Esse caminhar mental por tuas carnes, por teus pêlos. Esse querer provar-te que me provoca quando as pontas dos nossos dedos se encontram em ação aleatória. Quão aleatória será essa simples ação?

Sei apenas que me deleito nesse delírio só meu, nessa minha luxúria. Esse querer que me traz teu rosto no momento de acordar todas as manhãs. Esse que me abastece com incandescências lascivas, mundanas. E me reparo na inércia de beber-te um beijo, de deitar em teu peito, de te roubar pra mim.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Só Mais Uma Saudade



Às vezes me bate uma saudade de ti... Uma vontade de ti, uma ânsia do teu cheiro... Me pego, do nada, pensando em ti, lembrando teu rosto, teus traços, teus pêlos... Me vem uma saudade tão única... me vem uma tristeza tão dura. Me vejo de novo em teus olhos quase claros, quase escuros. Teus olhos quase meus...

Tem vezes que me dá essa saudade, essa ternura, essa lembrança. Sim, ainda lembro de nós. De todos os jeitos. Lembro de cada abraço, cada beijo, cada orgasmo. Lembro sorrisos e olhares cúmplices. E lembro também que essa é uma lembrança distante. Que já não és mais meu. Que já não estás mais em mim.

Sim, por vezes recordo teus abraços, teus dentes alvos no sorriso, tua boca a marcar minha pele, tuas mãos tão ternas. Recordo nossas conversas tão curtas, tão rasas. Sempre falamos só de nós. Daquele presente passageiro. Sem passado, sem futuro. Pretérito imperfeito esse nosso amor. Mas era amor, é o que importa.

Por algumas vezes, ainda me pego voltando pra ti a cada pensamento, te fantasiando, te idealizando. Já é mais raro, mas ainda assim, acontece. É saudade, que posso dizer? Sei que ninguém tem culpa. Sei que ninguém tem volta. Só que é tão difícil, nessas vezes, não pensar em ti com carinho, com afeto, com paixão.

Só nessas vezes, me dou por conta de que não passou ainda. De que meu coração não esqueceu, que te amo... Lá no fundo, bem no fundo, te amo ainda. Bem lá no fundo, sinto a tua falta. Lá, bem escondido, ainda desejo te ver voltar pra mim. E ser feliz como fui nos teus braços... Mas não liga, não. É só essa saudade daninha.

domingo, 7 de abril de 2013

O Vazio e a Febre



Tudo turva, tudo embaça, quando a febre queima na pele. O mundo perde o rumo, a noção, o conceito. Tudo nubla quando a febre queima o corpo. O bom senso incendeia, incinera, vira fumaça, pó. É quando a mente embota, é quando o que fala mais alto é essa chama que consome o sentido de tudo, toda a moral.

E quando o fogo domina o pensamento, nada resta de juízo. É tudo indulto, indulgência. Negligência. Tudo é festa, tudo é só a febre. Um suicídio, uma mutilação, atentado. Autopunição, demérito. Tudo em busca do prazer, do afago do ego. Tudo pode, tudo perde. Nenhum limite restringe o flagelo. Nenhum sentido, qualquer entrega. A febre consome a carne. E depois, mais nada há.

É então que a febre queima a alma, mata a ética que resta. É quando tudo esfria que sobra só a sensação de sujeira. O cheiro do álcool consumido, do ato consumado, do gostar-se extinto. É quando o pensar volta e olha de frente, reprovação latente. Vergonha. Quando a febre deixa o corpo em paz, vem a lembrança querendo ser esquecida, vem o frio da reprimenda muda, vem o baixar de fronte. O declínio. Vem só a dor.

Moralismo jogado no ralo. Regra transgredida. Lixo. Vazio absoluto a preencher o buraco negro dentro do peito. Desrespeito, desonra, embaraço. E a voz na cabeça a questionar “Por quê? Para quê? Por quem?” Egoísmo inútil, fútil. Carência. Estupidez. E a pergunta permanece: “Valeu a pena?” Olhos no chão, gosto de fel, resposta óbvia. Não...