terça-feira, 27 de agosto de 2013

Mutante



Não, eu não vou desistir! Brado aos quatro ventos que desisto da desistência. Comodismo não me representa. Constância não me satisfaz. É preciso navegar outros mares sempre! É preciso continuar a sonhar. Mesmo que a vida jogue na minha cara todo o peso da realidade. Mesmo assim, ainda irei ousar!

Se me deixar consolar pelo marasmo, não serei mais esta que tanto conheço. Se me deixar abater pelo conforto do não-agir, do sentar e observar a vida passar, morrerei antes de começar. Já estarei morta na ausência desse ímpeto de desbravar horizontes nunca antes explorados.

Ouso seguir em frente! Ouso viver paixões, amar sem travas. Ouso as loucuras dos jovens, a indolência dos amantes. Ouso querer ainda um último beijo de veneno, uma última noite de fogo! Tenho em mim essa chama inextinguível do desejo de viver a plenitude de tudo. De tentar e tentar.

Não quero a serenidade do amor calmo. Quero a vastidão de sentimentos! Prefiro gritar e sofrer e derramar lágrimas ácidas do que sorrir placidamente enquanto sopra o vento na paineira. Quero atirar meus clichês aos porcos, quero dançar ao redor das fogueiras. E me queimar! A dor me dá mais forças. Mais vontade de continuar dançando.

Não me julgue se somos diferentes. Não me julgue se não sou a terna mãe com avental sujo de ovo, vendo o dia passar pela janela. Também não peço desculpas pelo que não sou. Pois que me atrevo a ser a essência da calamidade, do desejar frenético, do cobiçar insaciável. Não sou eterna, mas eternamente mutante! Arriscar é preciso! Apaixone-se!

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Vinho


A gota rubra escorre da borda da taça como o sangue que goteja do pulso. Talho da tenra fruta, da carne pálida, prenúncio de morte engarrafada. A rolha que escapa do gargalho com seu estampido surdo, qual bomba de efeito moral, tal virgindade rompida, maculada, amoral.

Doce aroma a escapar do vidro, haustos doces descendo de encontro ao cristal. E toda a transparência se tinge de tinto veneno, deixando na língua um desejo preme. Saliva incandescida antecipando sabor. Torpor sensorial enquanto o néctar escorre pelos lábios. Frêmito de lascívia, puro prazer.

Cada gole, o sorver da própria vida, o arder do gozo, o pulsar as veias. Infinita misericórdia contida numa taça tão breve. E o fechar de olhos inevitável ante o rubor das faces. E a carícia da mente embalada em mística névoa. Mistério e encanto, sumo da árvore da sabedoria, seiva benfazeja do esquecimento.

Fugazes são esses encantos do líquido precioso de Dionísio. Causando euforias, acendendo paixões, brotando lágrimas, levitando corpos petrificados. As pagãs dançarinas da festa de Baco fazendo queimar o peito. E, súbito, somos libertos adoradores da vida. Da verdade que nele habita. In vino veritas!

terça-feira, 13 de agosto de 2013

O Leão



A fera pisa leve, sem deixar marcas na aridez da savana. Caçador sedento, faminto, espreita camuflado através da relva. Besta-fera assassina, puro instinto, nômade e rei. Indomável, invencível. Um gigantesco macho de dentes afiados e juba quase negra a revoar com o vento.

O corpo denso de pêlos avança lentamente sob o sol. Cada movimento, um bailado de morte. Cada músculo cadenciado movendo-se ao comando da respiração lenta. Olhos atentos, hipnóticos, temíveis. Felino sensual, bebedor de sangue. Feroz e selvagem. Imponente, belo, amedrontador. Dono de tudo.

O que não se sabe, o que não se pode ver, é que o majestoso leão está ferido. A fera não sangra, não manca, não vacila. Mas o peito foi dilacerado e ainda dói. A ferida aberta latejante de tempos infindáveis de combate. Sobrevivência e fome. Ele lutou, ele venceu. A dor, todavia, permanece.

Cansado, ele esquece às vezes de sorrir. Esquece do passo seguinte, perde por um momento a firmeza. Só que ele é forte e não vai parar tão cedo, esse leão de juba ao vento... esse homem de cabelos revoltos e olhos felinos. Tão belo que nem sabe o quanto é belo. Esse que, num lapso breve de solidão, ainda se deixa sonhar. Mas seu sonhar também é breve.

Por isso o leão e sua fome vagam sozinhos. Nenhuma fêmea a caçar por ele, nenhuma sombra para descansar. Seguir adiante é sua meta, até qualquer oásis imaginário. Para finalmente deitar e adormecer. Quem sabe, em meu colo...

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

O Anjo que Chora



Debruçada sobre a pedra, a imagem do anjo verte pranto pela vida esvaída. Quiçá sinta a dor da ferida, do golpe forte de desfecho. A lágrima, outrora quente, é feita de calcário tal qual a asa aberta do anjo que chora. Lamento quieto, intraduzível. Lamento falível de percepção impaciente. Pois, eis que o semblante desse anjo não pranteia. Apenas espera.

Dali tão próximo, o dorso da jovem sem nome anseia na espera perpétua. Assim tão bela quanto fera, mostra-se solícita e solitária donzela, arqueando da ânsia de arfar mais uma vez. E de tão perto apenas se traduz mármore, tão fria rocha quanto a suavidade da pele vitrificada em verniz. Como o anjo, a moça parece chorar. Inerte sofrer na eternidade.

E ao lado da cripta, a mãe virginal para sempre velada traz ao colo e ao rosto a máscara mortuária esquecida. Rigidez melancólica a encarar o céu sem consolo. Angústia constante que ampara o corpo do Cristo que já não é carne. Gratias omnia mater. Tristeza que vem da piedade, expressão imprecisa de granito e de dor que já não aflige mais.

Véus e flores que quase dançam, rígidos no cimento profanado pelo tempo, projetam sombras lazarentas em silente sincronia. Nada se move ao derredor dos túmulos, apenas os olhos atentos daquele que passeia pelos rastros do não existir. Aquele que vive para descobrir o belo, mesmo entre as veias perpétuas da morte sem cor, esculpida em pedra secular e brisa.

Esse que anda a procurar beleza na morte, a resguardar arte no doloroso significado do fim, é o próprio anjo chorando sobre a lápide. Esse é o verdadeiro buscador do significado da alma, É dele, não a foice, mas a lente. É ele o guardião do que se faz vivo entre a morada dos mortos.

Negações



Não estarei aqui quando você precisar. Não segurarei sua mão durante o caminho escuro. Não serei o porto seguro para o retorno da jornada. Não serei nada daquilo que você possa esperar. Não serei nem mesmo uma opção ao seu martírio solitário, ao claudicar do ego magoado. Serei nada. Menos que nada serei.

Não colocarei em risco meus princípios por você. Não será minha a dor que o consome. Não derramarei qualquer lágrima ou gastarei qualquer sorriso por culpa sua, ou por seu mérito. Não moverei músculo sequer para amparar você. E quando o desespero se instalar, repleto de monstros emparedados, não espere que eu esteja lá para cantar uma canção de ninar.

Não cederei ao seu desejo nem me deixarei seduzir por beleza alguma. Não aplacarei fomes ou febres, não serei o bálsamo, não viverei presa a você. Não me interessa que você peça, que você reclame, que você implore. Não ouço mais o que você diz. Não estarei por perto para ouvir. Não me darei ao trabalho de responder a nada.

Não faça caras e bocas, nenhum semblante lamurioso corromperá minha decisão. Não sou má, não sou mesquinha. Sou só aquela que deu a você tudo o que tinha de puro e bom. Sou quem recebeu de volta o mesmo nada que lhe ofereço agora. Não sou sádica. Não sou tirana. Sou simplesmente igual a você. E até nisso consigo ser a melhor de nós dois.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Erro Recorrente



O medo paira sobre o coração humano calejado em erros. O tempo não é amigo do esquecimento. O tempo simplesmente faz deslembrar a dor e cometer o delito outra vez. Mas esse tempo não apaga da fibra a impressão do medo, do abuso, do erro cometido. É o alerta da célula incrustada de memória.

E aquilo que atrai também apavora. O gosto na saliva lembrando o doce da vontade e o amargo da desgraça. Mesmo que o tempo passe, a impressão digital arroxeada permanece dolorida. Porque o querer do pecado vai voltar. Vai invadir e desdizer toda a verdade acumulada. Vai insistir e emoldurar em ouro a tragédia anunciada.

O dourar da pílula letal será suficiente para turvar a vista e calar o grito. O aroma aguçará o apetite. A refeição parecerá farta e saborosa ao paladar adormecido. E a recompensa atiçará tudo o que restar de cobiça. Este será o momento da queda, do derradeiro deslize. Fraqueja a alma e anseia a pele. Vacilar é morte certa.

Um passo à frente e tudo estará perdido. A dor retornará. O senso de desordem retornará. E o prato suntuoso se mostrará indigesto e pútrido. Comer desta fruta uma vez é imperícia. Levá-la novamente aos dentes, é imprudência. Atenção aos alertas. Desconfiança sempre. Ter medo é não se permitir errar outra vez.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Isso é uma declaração de amor



Sei hoje, mais do que ontem, menos que amanhã, que amo um ser criativo! Sei agora, mais do que nunca, que sorrio à menor menção ao ser intelectual que me conduz. Oh, sim... sou conduzida! E esse que me leva às alturas é também minha âncora. Esse que me sonha e que me faz sonhar, esse que me é tão caro quanto ouro.

Sim, amo esse ser escritor. Amo esse ser que delira em linhas tortas, em frases ríspidas, em personagens densos. Amo um homem que é mais que humano, mais que homem, mais que imaginário. Esse que amo é mais do que eu sou. É, isso é possível!!! Me espelho nele. Me inspiro no saber que é dele e não meu.

Inveja? Um pouquinho, às vezes. Porque ele é mais do que eu. Mais inteligente, mais culto, mais integrado. Ele sabe mais, isso é fato. Mas, essa inveja em mim é construtiva. Quem sabe, em algum momento, eu possa vir a ser assim, como ele. E ele nem sabe que é tanto assim! Meigo!!!

Só sei que tiro dele a inspiração pra me fazer escritora. Ele é meu personagem, minha utopia. Se eu fosse um homem, seria ele, sem tirar nem por! Seria como ele é. Com todos os defeitos e devaneios. Seria como ele, um alguém que sonha e que se permite sonhar. Coisa que já não sei fazer.

Esse homem – que é lindo de olhar, embora ele não acredite – é a meta perfeita da princesa na torre. Sim, um cavaleiro num cavalo branco. E olha que ele nem precisa de cavalo pra ser magnânimo. Um homem “tudo de bom”!

Ele é aquele que é másculo, que é tenro, que é viril, que é desejo puro! Mas, ele também é sensível. Ele é aquele que sofre, que chora, que sente no peito a mácula, a ofensa, que se decepciona... Ele é humano! Mais humano do que eu, que não sinto nada. Nem empatia. Eu que sou a fera. Ele, a contrário, é a bela... ele é, sem dúvida, melhor do que eu.

Esse homem – meu homem perfeito, meu amor eterno – é minha chance de remissão, de redimir-me perante o universo. Esse ser mais do que eu me ensina todos os dias a ser melhor, a viver melhor. Esse cara é o esteio da minha vida. E eu o amo por isso. Mesmo que ele não saiba. Ele me faz melhor do que eu jamais fui.

Minha mãe adoraria um genro assim. Mas minha mãe não existe mais e a vida não é tão perfeita! Fora isso, esse cara magnífico – e lindo de morrer, admitam!!! – é o homem da minha vida. Meu amor eterno! E o melhor de tudo é que eu sei que ele estará comigo pela vida inteira. Sem dúvida nenhuma!

Te amo, Roberto!!!!!!