terça-feira, 29 de abril de 2014

Minha Mãe - Parte 3

Estou pulando eventos, é claro. Isso não é um diário de mim. Falo de coisas marcantes e, por vezes, posso até me perder nas linhas do tempo... Lembro de meu avô Araby e sua capa de exército... lembro das rapaduras feitas no taxo por minha avó Rodhe. Os pastéis da Dadada... o pé de caqui no quintal (ou pátio, como a gente chama aqui no sul).

Lembro do vô José e sua passividade contagiante. E lembro que eu fui a única a “tocar” aquele violino. Lembro da vó Adir... sem comentários sobre ela, só mais tarde. O que interessa é que fui crescendo num ambiente de brigas e rusgas. Aprendi a brigar bem! Ninguém me ganha numa discussão!

Quando meus pais se separaram, pra mim foi normal, foi bom. Não tive traumas nem fiquei com sequelas... sou a típica filha de divorciados, independente e arredia. Nesse processo, duas pessoas cruzaram o meu caminho (eu tinha 6 anos). Duas figura muito distintas e com papéis incrivelmente diferentes.

Vou parar aqui pra fazer um apontamento! A Madrasta!!!! Todos os deuses sejam louvados pela IVI em minha vida!!! Não estou puxando o saco, é a verdade! Por causa dessa mulher (que era uma criança na época) eu sou a guerreira inatingível que eu sou hoje! Graças a essa mulher, minha filha tem a avó que merece (sem desprezar a outra avó paterna, claro)! E, sério, a Ivi sabe ser um pé no saco quando quer! E ainda funciona!

Enfim... Do outro lado, veio o Alex. Ele tentou, como padrasto, admito. Por alguns anos, ele tentou. Mas nunca conseguiu minha afeição plena. Afinal, eu tinha o meu pai e ele era o máximo. Minha mãe? Ela era a culpada. Meu pai deixou de gostar dela e foi embora. A culpa era toda dela. Quem mandou ser assim, estúpida...

Por essas e por outra que eu penso que a culpa pode ter sido minha, da minha percepção infantil errada e não respondida. Passei a ver minha mãe como um erro da natureza. E ela não se esforçava pra mudar isso... ou não via... vai saber.

O fato é que, se não existissem aquela tia que nem era tia (a Dadada) e a Ivi (a antimadrasta), eu não teria nenhuma figura feminina por mim... era assim. Eu estava sozinha no centro, com um apoio (bom ou ruim) de cada lado, um em cada casa.

Dos meus 6 anos aos 10 ou 11, foi esse o panorama. Até aqui, parecia tudo normal... Tive meus primeiros contatos com a morte nesse período... Meu avô materno, meu avô paterno, minha avó materna... todos se foram...

Meus 12 anos foram, talvez, um marco. Um divisor de águas, como se costuma dizer... as coisas erradas começaram a acontecer... E eu não sabia como fazer aquilo parar.

Meu pai e eu (8 anos)


Fica pro próximo post.


Minha Mãe - Parte 2

Talvez eu devesse começar pelo começo... eu nasci 18 meses após minha mãe e meu pai se casarem (com véu, grinalda e tudo)... Naquela época, não havia ultrassom nem fralda descartável. Minha mãe sofreu um aborto espontâneo aos 3 meses de gravidez. Ao ir ao médico (ainda bem que foi), descobriu que ainda estava grávida... era eu. Sou persistente.

Nasci. De cara, meu pai abandonou o leito conjugal e passou a dormir no quarto do meu tio e padrinho (solteiro que esse era na época). Ele não gostava de choro de criança. Começamos bem, meu pai e eu...

Enfim... fui crescendo... Minha primeira lembrança, a mais antiga, é de minha avó e minha tia (a Dadada, pra quem teve o desprazer de conhecer!). Essas duas efetivamente cuidavam de mim...

Bom, o que eu sei – o que pude deduzir – é que minha mãe não foi talhada para ser mãe. Tipo, trocar fraldas, passar noites em claro, amamentar e padecer no paraíso. Eu sei porque fiz tudo isso! E amei fazer, sinto saudade, caso alguém pergunte.

Foi quando minha filha nasceu que a ficha terminou de cair com relação a minha mãe. Eu entendi que ela deveria ter me amado desse jeito absoluto, sem definição. Do mesmo jeito que eu amo a minha filha. Só quem pariu pra saber...

Mas, nunca foi assim. E eu passei a vida questionando se a culpa não era minha. Eu devia ter nascido menino. Meu pai gostaria mais de mim assim. Ou... eu deveria ter nascido menina E SIDO UMA MENINA. Minha mãe gostaria mais de mim assim...

Só que eu não era. Eu era uma menina moleca, que jogava futebol na calçada e enforcava bonecas na parreira... Eu adorava três coisas: andar de bicicleta, os meus gatos e torturar o meu primo mais novo... que fazer... desculpa, Beto!

Lembro que eu ganhei um álbum de figurinhas da Disney, desses de cromos... e nunca consegui colar uma figurinha sequer... porque minha mãe colava todas antes de mim. Eu me sentia frustrada, eu sabia fazer aquilo... sei lá quantos anos eu tinha... 4 ou 5... mas ela fazia questão de colar por mim. “Tu é desajeitada, tu vai estragar.”

Nessa época, meu pai me ensinou a ler (o que botou abaixo qualquer tentativa de fazer do colégio um lugar divertido mais tarde...). Minha avó materna sentava comigo todos os dias depois do almoço e lia uma história no pátio, num banco verde de madeira que é um dos marcos da minha infância. Eu copiava as histórias e depois copiava os desenhos do livro... foi quando me apaixonei pela escrita.

Minha mãe e eu (5 anos). O bebê é a Luciana.



Comprido isso, né? Segue no próximo post...

Minha Mãe - Parte 1

Minha intuição me diz que devo falar sobre minha mãe. Faz tempo, já, que sinto essa necessidade. Mas o pudor e a decência me tranam. Afinal, não se deve falar mal dos mortos. Não é mesmo?

Quando comecei esse blog, anos atrás, nada tinha em mente além de relatar verdades sobre mim mesma. E fiz isso. Afinal, catarses são lembranças, sinapses, conexões, revelações. Catarses sã maneiras de deitar a público o que vai na alma. E tenho feito isso a contento.

Entretanto, não há como falar sobre minha mãe sem dor e sofrimento. Não há como convidar à leitura de um texto tão caustico. Mesmo assim, ainda tomo coragem para narrar a pior parte dessa minha atual existência. Afirmo que é a pior, pois algo em mim grita que o fato de ter sido filha dela me gerou tantos bloqueios, pontos cegos, traumas ou o que seja que vocês decidam chamar.

Alguns vão ler essa série de textos absurdamente catárticos e vão saber... Vão saber que são verídicos porque estavam lá. São testemunhas oculares, cúmplices. Outros vão ler e vão saber porque compreendem que é verdade. Estiveram lá, ma nada viram. Apenas sabem de quem eu estou falando.

Talvez esses textos levantem fantasmas sepultados por décadas. Eu sinto muito por isso. Todavia, para mim, os fantasmas nunca dormem. Eles assombram a cada noite, em cada fresta da memória. E, sim, eu vou citar fatos e nomes e tudo o que eu puder pra me livrar desses espectros. Eu Peço desculpas a quem se doer. Nós sabemos de quem eu falo!

Vou escrever os diálogos como falamos, na prosódia aqui do sul, com o perdão dos puristas... Vou numerar os textos para que seja lido, caso desejarem ler, em ordem cronológica. Embora nem eu mesma saiba se cronologia se aplica a esse relato. Vou começar por onde me dói mais.

Vou começar pelo dia em que ela, minha mãe, a pessoa que mais deveria me amar na face do planeta, me disse: “Tu é feia. Tu é sexy, mas é sem graça!” Esse foi o começo do fim... Eu tinha 13 anos... E eu era sexy, mas sem graça. Eu era feia. Porque ela era linda. E ela era linda... Mesmo...

Minha mãe aos 22 anos. Eu tinha 2.


Segue no próximo post...

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Nas Pontas dos Dedos

Sei bem que não posso querer de ti mais do que uma leve brisa de saudade. Sei, conscientemente, que jamais te terei ao alcance das mãos. Sequer das pontas dos dedos. Pois foges, esquivas-te para não sofrer desse mal que me acomete. E que é contagioso.

A praga mais terrível de todas já é dona dos meus sentidos. Não há cura, nenhum placebo. E te proteges. Quem sou eu pra te recriminar por esse resguardo? Já que sei o que sofro e o que dói e o que judia de minha pobre carne essa febre...
                                                                                                                        
Mas, estás seguro até certo ponto, meu amor. Pois que o vírus desse mal harmônico já te atinge as células mais superficiais. Si, já sentes o tremor, o arrepio que desfalece. És mais um dos enfermos do mal do milênio. De todos os milênios.

Ainda assim, sente-te seguro. Eu aqui estou para cuidar de ti. Mesmo que eu pereça, mesmo que eu sucumba, nada me impedirá de estar aqui para ti quando me quiseres, quando precisares. E, acredita, vais precisar brevemente desses zelos meus!

Embora duvides do poder do vírus, é ele que já te causa esse frio no estômago, essa sensação de abraço do ar vazio. É ele que te queima as entranhas nas madrugadas frias na tua cama vazia. É o vírus que te faz lembrar de mim ao amanhecer.

Lentamente consumindo a tua alma até o derradeiro desfecho. Quando te tornarás, assim como eu, escravo desse sentimento. E nada, remédio algum, te salvará do fim previsto. E tu me amarás assim como eu te amo. E seremos culpados e fadados a morrer de amor...

domingo, 13 de abril de 2014

Lágrima Ácida

Já não há na alma sulco tão fundo. Não há abismo mais negro, veneno tão mortal. Já não há no peito dor tão lancinante. Não há noite mais sinistra, ferida tão podre. E a tal mal irremediável, alguns inocentes aprendem a chamam amor.

Amar é o incendiar eterno dos sentidos. E esse queimar é doloroso. Camões já escreveu. Mas ele estava errado quando disse “não se sente”. Não há possibilidade de passar pelo amor sem sofrer, sem derramar sangue das veias dilaceradas.

Mesmo que tudo pareça com a pérola perfeita da ostra, o brilho que nos vai aos olhos vem do aço afiado das garras das fúrias. Enlouquecemos, mesmo que calmamente, e entregamo-nos a uma felicidade que não existe, a não ser em nossa vontade.

Algo será, algo haverá e o lindo brilho da adaga perfurará o coração, o orgulho, a verdade. Maculada a aura sublime, o que restará deste dito amor? Eu respondo. Resta aflição, angústia, ansiedade, insegurança. Resta dor.

E por mais que ainda se ame – pois o coração e a mente são estúpidos –, o ferimento infectado de traição lateja e arde. Cabe ao ser dilacerado engolir ou verter a lágrima ácida da desilusão, da perda da confiança. No outro e em si.

Todavia, ainda que estraçalhe a capacidade de perdoar, ainda que a amargura inunde cada poro e cada célula... mesmo que todos os átomos gritem por expiação, ele continua lá. O amor. Como uma infecção virulenta que termina por prostrar-nos de joelhos.

Sim, existe a mágoa. E essa custa a se exterminar. Resta a dúvida eterna. Sobra inconformismo, desconfiança, ciúme. Mas ainda nos domina essa necessidade do outro. Do objeto do amor, aquele que nos trai, que nos machuca.

Resta-nos aquele que, mesmo sem querer, faz de nós a mais triste das criaturas. A mais humilhada, a mais infeliz... a não ser quando ele está por perto. Pois é quando a droga age. É quando o amor volta. E nos entorpece... e amamos sem dar atenção ao que dói.

Somos meros peões nas mãos desse sentimento mesquinho e vil. Esse que une dois desiguais e os faz mais do que amantes, os faz um. E é tanto sofrimento que vem... mas vale tanto a pena simplesmente olhar nos olhos dele e dizer (ou esperar ouvir) um simples “eu te amo”. 

sábado, 12 de abril de 2014

Abalo Sísmico

Amanheceu monótona e normalmente. O sol dourou a torre do relógio antes de banhar o resto da cidade. A torre quadrada, da altura de quatro casas, vigiava e se impunha diante da cidade rasteira. Os ponteiros que nunca atrasavam, marcavam 6h32 da manhã.

Ao redor da torre, os ruídos triviais despertavam. Pássaros, carros, crianças, buzinas, máquinas. E o dia seguiu sob a mira do redondo relógio quase branco no topo da torre quadrada de pedra gris, virado para o leste distante. Até que, repentinamente, o som parou.

Por poucos segundos, não houve barulho ou vento. Veio a onda, a avalanche invisível. A terra tremeu e apavorou, rugindo mais alto do que qualquer motor. E parou tão súbito quanto começara. Também demorou alguns segundos para que tudo virasse histeria lá embaixo, por entre as ruas de casas rasas.

Os ponteiros pretos de ferro fundido marcavam 11h55 da manhã quando o pânico pareceu amainar. Só um abalo sísmico. Nenhum dano aparente. E o meio-dia passou sem fome, e a tarde aconteceu assistindo a correria agora organizada.

Quando todos os vasos de flores voltaram aos parapeitos das janelas, assim que as novenas calaram as rezas, enquanto aquele dia de trabalho interrompido findava e o sol do oeste a tudo tingia de púrpura, novamente o som se foi.

O rugir do fundo da terra em fúria foi terrível. 18h44. Casas desabaram, incêndios iluminaram a quase noite. Gritos, choro, sinos das igrejas repicando. Sirenes e luzes piscando por todos os lados. As paredes maciças da torre do relógio ganhando rachaduras profundas. Era o caos na cidade.

Anoiteceu rápido e os faróis dos veículos em disparada ficavam cada vez mais distantes. Demorou, mas finalmente a cidade aquietou em opressora ausência. Nada se movia ao pé da torre. Nem pessoas, nem animais. Nem o fogo queimava, nem o vento soprava. A cidade morrera.

Apenas o soberbo relógio em sua torre gris seguia a girar seus precisos ponteiros. E o silêncio acompanhou a escuridão sem lua. Tudo acabara e a torre lá estava, firme. Quase firme. E então, veio o tremor uma última vez. Um tiro de misericórdia, botando abaixo o que resistira. Pedaço após pedaço deitando ao solo.

A torre tombou às 23h29, última sobrevivente daquela sequência de tormentas inadvertidas. Já não era majestosa, já não era mais que um amontoado disforme de pedra quebrada. E a terra se calou, levando a cidade consigo.

Todavia, o tempo não morreu com a cidade abandonada e destruída. O tempo sobreviveu no relógio caído de lado na rua. O vidro rachado como uma ferida aberta ainda protegia os ponteiros. E os ponteiros ainda se moviam. O relógio sem torre marcava 23h57. Aquele dia acabara.