sexta-feira, 11 de julho de 2014

Dormência

Não escuto, não vejo, não sinto...?

Me dei conta agora mesmo... faz tanto tempo que não ouço música. Nenhuma de minhas favoritas. Nenhuma das outras. Música nenhuma. Um espaço vazio e silencioso aqui debaixo da pele. Um quase buraco negro, uma anã marrom... pesada, fria, invisível.

Invisibilidade é o que me causa a falta de música. Porque a sonoridade, mesmo não sendo a minha arte, me acompanha na intenção artística. Em língua de gente, eu crio com música, eu me sinto bem com música. A pergunta é, porque então faz tanto tempo que estou em silêncio?

Eu sei a resposta. A resposta vai e volta. Chega, se assenta e amortece o meu entorno. Ocupa o lugar da música, da arte... ocupa todos os espaços, se esparrama e me ocupa os sentidos. Aí, de repente, surta, se estressa, some. E quando a resposta vai embora, a música volta.

E com a música, volta a criação, a criatividade, a sensação de reencontro com algo que estava aqui, mas estava perdido. Tantas vezes esse vai e volta, tantos resgates e desistências, que a força da resposta perde a força. E já não dói quando ela vai embora, insensível, ofensiva.

Assustador isso... esse não doer, quase não ligar. E testar a distância... e descobrir que a distância tanto faz, já não importa. Reconfortante saber que a música ainda espera por mim, quieta e pronta a renovar meu colorido tão desbotado. E as idas e vindas da resposta não merecem outro retorno, outro contexto, outro perdão...

Mereço eu a complacência da música e desse texto que sai depois de tanto tempo de uma eu amortecida, amortizada, morta... Uma de mim quase estranha, essa que não ouve, que não vê, que já quase esqueceu de sentir. Dessa, de quem a resposta tanto se apossa, eu não gosto. Prefiro minhas músicas.



quarta-feira, 2 de julho de 2014

Déjà Vu

Vou usar desse espaço para tocar no assunto que pretendo, pois é opinião minha, minha história refletida. E esse blog é um espaço meu... talvez, o único.

Faço parte de uma comunidade do Facebook que se intitula, sem dar nomes, de "ajuda" a escritores. Acabei de ver, nesse grupo de mais de 8 mil membros, uma rigorosa atrocidade. Uma garota de 11 anos postou, inocentemente, a sinopse de sua primeira história. Nada infantil, nada aleatória, como se poderia esperar. Ao contrário, pareceu (a mim) de muita confiança e estímulo.

Pois bem, ela pediu opiniões sobre a sinopse. Ao longo de 30 comentários (até o momento que escrevo), uma enxurrada de críticas e generalizações que inibiriam até um literato de renome e anos de trajetória. Quase nada de construtivo foi dito, tirando uns poucos posts, apenas pontos ruins foram levantados (e inventados!) pelos comentaristas. 

Mesmo depois que ela disse a idade, em vez de incentivo, recebeu piadas e pitacos obtusos de vários por lá. Não vou repetir nenhum deles, não vale o esforço. O que é crucial é entender que esse tipo de chicotada - e isso realmente me cheira a nariz torcido e inveja - pode destruir uma carreira que ainda nem começou. Pode desiludir uma potencial escritora.

Quantos daqueles algozes, eu pergunto, tinha metade da coragem ou da criatividade (ou mesmo da técnica pré-desenvolvida) dessa menina aos 11 anos de idade? Quantos lá a massacraram, mesmo sabendo que consequências terríveis podem advir dessa abordagem cruel?

Ninguém gosta de críticas ruins... Mas, um adulto as refuta, as ignora, de alguma forma sabe lidar com elas. O que esse nível de anti-ajuda pode causar a uma autoestima em formação? Lembro como me atingiu aos 18 ou 20 anos quando me mandaram "parar com essa bobagem de escrever e fazer alguma coisa séria de verdade". Doeu muito... e eu já era adulta (ou quase isso).

Não pude evitar de me doer por essa jovem autora. Não pude deixar de pensar em mim mesma. Não pude deixar de temer pelo futuro dela, de sua escrita... Vim apenas dizer a esses experts de línguas cortantes: cuidado! A alma de alguém não merece ser pisoteada. Controlem seus recalques quando criticarem, mesmo que o alvo atice suas porções invejosas ou seja claramente melhor do que vocês!