domingo, 21 de setembro de 2014

Minha cama

(deveria ter escrito isso dia 18 de setembro de 2014)

Minha cama tem cheiro de corpo. Não do meu, do outro! Um corpo que me perfuma, que me consome, que me infecta, que me resvala entrededos...

Meu corpo tem o cheiro de outro corpo. A pele na minha pele de uma maciez indescritível. Músculos ocultos, mas hábeis. Coxas grossas, curvas densas, mãos descompromissadas... Esse corpo que toma o meu corpo, que me suga, me consome, me flagela. Esse corpo que me devora! E eu deixo.

E ele vem e vai sem a menor preocupação. E ele vai e volta, porque eu permito. E eu permito porque esse corpo me incendeia ao mais breve olhar. Sim, esse corpo tem uma cabeça, e olhos e lábios... E ele sabe se dar e me beijar e ser meu quando os meus lábios e olhos se despejam, sedentos, sobre ele.

E é quando ele se submete e se torna meu que tudo, caoticamente, acontece! No calor do gozo, no esplendor do orgasmo, ele é meu dono, meu escravo, meu amante, meu vassalo. Ele... esse que eu já amei. Esse que eu já prezei, e que me é dor e prazer e sublimação. Ele, que faz de mim alguém melhor.

Sei que sou inteira sem ele. Mas, com ele, sou invencível. Ele apenas me faz bem. Tão bem, que a um ano eu sou só dele. Dele e do gosto daquela língua, daquele toque. Eu sou ele quando ele está aqui. Do mesmo jeito que ele é meu na minha cama. Quando esse trecho acaba, somos eu e ele, únicos, insólitos.

Insólita essa falta que ele me faz. Que se faz presente quando menos eu espero. Que se sacia em si mesma... porque ele sempre volta pra mim! 

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Em primeira pessoa

Por vezes, a vida nos mostra mais do que estamos dispostos a ver. Em outras ocasiões, são sonoridade e vozes – discursos mil – que não estamos preparados para ouvir. Todavia, em algumas poucas vezes, essa mesma vida nos põe diante do que precisamos, do que necessitamos aprender.

Atente-se. Essa oportunidade pode se manifestar na forma de um amigo. Um mero desconhecido que se dispõe a ajustar tudo aquilo que está errado em você. Sim, eu sei, parece insano, parece incoerente. Acima de tudo, parece assustador. Meu conselho é: não tenha medo! Aproveite!

Eu (sim, falarei em primeira pessoa) tive o privilégio de cair nas graças de uma dessas pessoas que apenas sabem mais. Já tive ataques, já tive surtos, já briguei, já ofendi. Esse cara permaneceu quieto e firme, sabendo, talvez, que meu acesso de raiva era só isso, um acesso de raiva, de pânico. Que passaria. E passou.

Hoje, tão pouco tempo depois. Sei que estou em boas mãos, no bom caminho. Embora ainda (e sempre será assim) haja conflitos, sei que tenho por mim um mestre que me deu e dá e dará a chance de ser um “eu” melhor. Sempre melhor que antes.

A esse cara (sim, é uma pessoa como eu e você, com defeitos e virtudes – mais virtudes) eu me curvo e digo apenas: “Obrigada, meu amigo. Obrigada por não desistir de mim. Obrigada por acreditar que eu sou capaz. Eu preciso de sua experiência. Juntos, vamos longe."

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Não sei o que faço

Não sei o que faço. Mas, faço tudo que posso. Nem sequer um mínimo indicador para me dizer se estou indo para o lado certo. E, nem isso. O que é certo e o que é errado, afinal? Esquerdo ou direito, bem ou mal, bom ou mau. Miséria e riqueza. Virtude e pecado. Qual você escolheria?

Continuo sem saber o que faço. Por que faço. Para quê? Faço o que faço por instinto e porque uma voz sem voz me diz “segue em frente sempre”! Se essa voz está certa, saberemos um dia. Até lá, sim, seguirei firme e tentando. Porque não sei desistir de nada. Vou ao fundo de qualquer coisa... jeito triste esse de ser.

Sou assim, persistente, teimosa. Em 90% das vezes, quebro a cara. Já estou acostumada a fracassar. O que não quer dizer que eu desista. Nunca! Um fracasso é só uma próxima oportunidade para tentar diferente. Loucura? Até que é! Mas, fazer o quê? Eu não compreendo a palavra derrota...

E sou assim em tudo. Sou assim com projetos profissionais, novidades tecnológicas, empreendimentos surreais. Sou assim também na vida, com quem eu amo. E se eu amo, eu insisto. Se qualquer brecha me disser que tenho chance, o investimento é fato. Desistir de um amor é desistir de si mesmo.

Claro que a margem de erro é grande – em todas as instâncias, eu admito –, mas eu já disse que sou teimosa. Sou orgânica, sou dinâmica, sou estranha! Faço o que faço porque gosto. Mesmo que, na maioria das vezes, eu não saiba o que faço. Apenas faço.

Como engendrar um novo romance. Como entrar de cabeça num projeto cultural louco e sem qualquer chance de futuro (vai saber!). Como investir cada momento do meu humor – parte boa – nesse homem que eu insisto em chamar de ‘meu amor, meu anjo’.

Faço isso, invisto, insisto. Sei o que quero e como quero. Embora, muitas vezes, não saiba o que faço. E se faço, é porque o instinto me manda, me corrompe, e impele. Essa sou eu, explosiva, inconsequente, inadvertidamente errante! E eu erro... e o clamor da vitória me redime. Tanto quanto o beijo dele.... esparso e vez-em-quando... mas sempre aqui na minha boca!

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

E eu ainda estou aqui

A queda nada tem de vertiginosa, nem é rápida ou fascinante como um atirar-se da torre  do castelo. A queda é lenta e tediosa, silenciosa, apática. Vamos, dia a dia, afundando na lama enfadonha, fedorenta. Nada a ver com a areia movediça aventureira do filme da sessão da tarde. E nenhum cipó nem braço de mocinho pra nos fazer para de afundar.

Quando a rotina deixa de ser divertida ou estimulante, muito vagarosamente mergulhamos no torpor de ser apenas a sombra de nós. E a sombra de mim é gigantesca. Engolfa a luz e tudo se torna limbo. O aterrorizante é que o limbo nos parece – me parece – confortável. E eu afundo mais.

Não sei dizer exatamente quando tudo começou a perder o brilho. Se foi fato isolado ou o cansaço de perda diante de perda. Quando o castelo de cartas começa a desmoronar, nada o salva do espedaçar-se completo. Minhas quedas costumam ser assim, completas. Nada sobra pra recomeçar.

Dessa vez, porém, foi diferente. Sim, venho perdendo e perdendo, como costuma acontecer aos ciclos. Todavia, não foi a queda adrenalínica do vigésimo andar. Foi um flutuar, um afundar-se. Um mergulho que, de tão lento e tedioso, mal se fez perceber em morte. E foi assim. Me peguei outra vez no fundo do meu próprio nada.

Seria triste. Seria, se eu tivesse me dado conta desse fracasso. Mas ele veio devagar demais pra ser percebido. E, em meio ao lodo que me consumia, inadvertidamente abri mais um arquivo e tornei à rotineira labuta. Alheia que estava à asfixia. Eu li. E foi um grito de Thiago que me fez acordar no meio da queda.


Aquela dor tão absoluta que me traduzia e, ao mesmo tempo, me sublimava. De novo o suspender a respiração, de novo o sorrir sozinha dante da frase perfeita. De novo o estonteante delírio e regozijo da literatura a invadir-me as veias tomadas de lama. Incandescendo, gerando lava! E ao final daquele grito, eu mesma gritei. Sim, eu ainda estou aqui!!!