sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Sou Velha

Dia desses, mandaram me dizer que eu sou velha.
E eu concordo em todas as instâncias.

Vejam, não me disseram que "estou" velha, mas que "sou" velha. O que implica uma diferença significativa. No meu julgamento, a declaração não tem a ver com idade. Tem, sim, uma tentativa de ofensa que, em verdade, é verdade!

“Ser” velho significa finalmente absorver os ímpetos de juventude, os arroubos de aventura e os sonhos megalômanos de um futuro esplêndido. Significa uma calma que só os que são velhos têm, significa encarar o tempo passivamente, como se fôssemos, eu e o tempo, velhos amigos jogando xadrez.

“Estar” velho é sentir-se menos jovem, é a contagem de anos pesando sobre as articulações e a ânsia dolorosa de querer voltar no tempo. Desses males, fora a lei da impiedosa gravidade, não sofro nenhum.

Não choro pelos perdidos ímpetos de juventude porque jamais os perdi. Ainda invento mundos fictícios e brinco com amigos imaginários, ainda visto-me de personagens e personalidades e sou qualquer coisa e qualquer um. Posso ser o que quiser ser, e o sou na integralidade da minha ficção. Isso inclui os arroubos de aventura, obviamente.

Quanto aos sonhos megalômanos de um futuro esplêndido, já os vivi a todos. Sim, realizei-os e ainda os realizo diariamente. Meu futuro sonhado, há tempos é o meu presente, minha realidade. Talvez eu tenha sonhado pouco. Mas garanto que sonhei o suficiente!

Alguns exemplos?
Um dia eu sonhei ser romancista: meu primeiro romance foi publicado em 2012. Já foram três a público e ando trabalhando em mais alguns. Um dia quis fazer cinema: tenho seis prêmios na estante (junto com meus livros). Um dia sonhei ser mãe: minha criança tem 8 anos e é minha criação mais perfeita. Um dia sonhei viver de escrita: sou escritora profissional há uma década (sim, isso é possível!). Estudei magia, formei autores, tive alunos, toquei instrumentos (ainda que muito mal).

Tudo isso eu fiz e sigo fazendo. Não descarto a possibilidade de mais alguma conquista. Mas, não, não tenho mais nenhum mega ideal. Realizei-os um a um. E todos os desejos que ainda vierem, eu os realizarei. Não tenho qualquer dúvida.

Minha vida me deu conteúdo, experiência, a certeza de que posso sorrir e administrar com cuidado e leveza tudo isso que fiz. E, sim, essa é uma consciência velha. Da velha que sabe que o futuro só importa a quem não é pleno no hoje. Da velha que viveu anos gloriosos, amores imensos e crises catastróficas (e, creiam, muito disso tudo ainda há para viver).

Por tudo que vivi, afirmo e concordo: sou velha! Sei que esse parece o discurso de alguém com 82 anos, não com 42. Sei que me autoafirmo (jamais disse que era perfeita!). E sei bem que a maioria dos jovens – e dos que estão velhos – discordará de tudo o que eu digo aqui. É a vida, não discuto (mais) a opinião alheia.

Para quem me mandou tão sábio recado, eu agradeço de coração e retribuo com um “velho” conselho: pare de se preocupar tanto comigo e faça o que eu fiz. Vá viver!

sábado, 5 de setembro de 2015

Meu Novo Amor

Meu novo amor deve ter cabelos escuros e olhos intensos. Deve olhar-me como quem contempla uma obra de arte renascentista. Deve ostentar aquele brilho que só para mim será visível. Deve ver além de mim, de meu corpo, minha alma.

Não lhe abro mão da boca bem desenhada, de sorriso fácil e covinhas que a barba esconde. Esse novo amor deve dizer nos lábios sem palavras a plenitude de seus sentires. E sonhar em suspiros, arfar em ânsias, resfolegar quereres. Ah, sim, e não menosprezar Caetano.

Meu novo amor não deve ter cor nem credo. Crendices à parte, devo ser eu sua divindade. A face da deusa em meu próprio rosto e dele a seiva que gera a si mesmo em deus consorte. Que a lenda do inverno e da colheita se unam num mesmo sacrifício. Nosso sacrifício, morrendo-nos nos braços um do outro.

Meu novo amor há de ser sereno, carinhoso e terno. Há de ser selvagem, vigoroso, eterno. Há de ser, esse meu novo amor, reflexo de Marte e Mercúrio. Médico dos males de meu espírito, resguardo tumular de meu futuro.

Há de ser o braço forte, musculoso, a amparar minha queda. Há de ser o peito afetuoso, protetor do meu descanso. E eu hei de deitar a testa em seu ombro e esquece de fato dos fardos do universo. Eu que serei noiva, rainha, serva. Eu que serei dele somente e por completo.

Meu novo amor deve ser meu amigo, meu repouso, minha morada. Deve ter a mente aberta e a racionalidade intacta. Deve ser, acima de tudo, um homem sensato. Para que meus desvarios e minhas máculas não o contaminem, para que meus desamores não o desamem. Para que meu passado não o interesse.

Meu novo amor, enfim, deve ser belo e franco, sucinto e melancólico. Deve ter doeres e ardores. Deve ser meu além e meu agora. E eu devo ser dele a aurora de uma nova paixão. E, mais do que tudo, meu novo amor deve ser meu todo, meu meio, minha metade. Deve ser apenas e tão somente meu!