sábado, 3 de outubro de 2015

Pacto

Me apaixono por você toda semana. Todo encontro. Uma vez por mês. Tipo isso. Mesmo que você não mereça ou nem ligue. É como uma dependência, uma química. Talvez seja quase um vício. Daquelas coisas que a gente faz e não tem muita explicação. Só faz bem. E nem tão bem, um deleite momentâneo, passageiro, um agrado.

Depois desse tempo todo, já nem sinto a sua falta. Só quando você está perto. E é aí, ao alcance da mão, que o coração lembra de gostar de você acima de qualquer afeto, de qualquer merecimento. É quando a boca tem saudade do beijo, da barba arranhando a pele. Acho que é desejo e só. Mas se fosse só desejo, se explicaria a plenitude que eu sinto ao te ver dormir?

Sim, você já sabe de tudo isso. Tem plena consciência desse meu carinho dependente. E não se importa, eu sei. Não posso exigir mais atenção, não posso querer foto de casal na internet, ou passeios de mãos dadas. Nada tenho de você além de amizade e desejo. E nisso, somos parceiros.

Culpa sua? Você é o insensível? É, até é. Mas eu permito que assim seja, dou minha bênção a você e sua inércia descompromissada. Abençoo minha sorte a cada peça de roupa que você deixa no chão do quarto. E na manhã seguinte, sempre acordo a tempo de ver você dormir.

E é nessa espera pontuada e eterna por uma palavra carinhosa, por um olhar mais profundo, que vou levando nosso existir esparso, enevoado pela distância que sempre leva você de mim. A distância que destoa da proximidade de nossos corpos, de nossas mentes.

Me apaixono por você toda semana, todo encontro, uma vez por mês. Mas esqueço de existir por você assim que a porta se fecha. Estanca a saudade e o querer desenfreado, estanca a memória da tua pele, teu cheiro. Tudo para e amortece até você voltar. E esse é o pacto. Você sempre volta.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

O espelho me disse...

Desde tenra idade, costumava (e costumo ainda) ouvir certa canção de um grupo pra lá de antigo! Música de força, com eu denomino, música que dá aquela injeção de ânimo, de vigor e de jovialidade! Música que nos bota lá no alto, nós e nosso ego!

Hoje, porém... agora mesmo... ouvindo outra vez essa mesma música, a ficha caiu. Compreendi que a letra da bela canção nada mais é do que a verdade absurda, a realidade salgada, estapeando a minha cara de trouxa... a música não é de força, é de resignação, de repreensão, de lástima.

Tantos anos, décadas, escutando aquelas palavras rimadas, cadenciadas ao ritmo forte, achando que o mundo era meu. E era exatamente o oposto. Não é de vitórias que a letra fala, não é de minha habilidade natural de ressurgir das cinzas. A letra fala outra coisa...

A frase mais forte, mais idolatrada, aquela que mais me representava, diz apenas que não sou diferente, que não sou melhor, que continuo a mesma pessoa que precisa se refugiar em uma música para esquecer que a realidade é mesquinha e medíocre.

Ainda sou aquela adolescente tímida escondida atrás de óculos de aros de plástico preto. Ainda sou a que não é bela nem fera, a que não é forte. Ou é, mas nem tanto... Ainda sou a menina feia, a moça sem graça, a mulher anônima. Ainda sou a mesma.

Não, espelho, eu não tinha compreendido que o não mudar se referia ao que sou de fato, não ao que minha mente gerou desse “eu mesma” artificial e poderoso. Não havia entendido, até agora, que quando você me grita que não mudei, é essa sombra que sou, esse arremedo do que queria ser, que continua imutável.

Agora tudo faz sentido. A vida que levo não exatamente é aquela que quero. Nem sempre estou com a razão, afinal. É, espelho, você tinha razão o tempo todo. Não, eu não mudei. Não mudei...