terça-feira, 28 de junho de 2016

Monólogos

Eu ando triste. Apesar de tudo em seu lugar, ando triste. Apesar da cadência controlada dos dias e dos rituais domésticos e suas competências bem estruturadas, ando triste. E na busca desesperada por conforto, recolho-me aos pensamentos, aos devaneios que me afastam da realidade asfixiante. Me invento.

Em minha mente torpe, tudo é possível, tudo viável. Nesta em que me moldo tão abruptamente, não vejo a máscara que me assombra do espelho. Tornei-me, no mundo real, uma desfigurada, meu rosto é uma carranca entalhada em carvalho decrépito, com a ruga constante de preocupação fazendo encontrar as sobrancelhas. Não gosto da imagem, é feia.

Por isso, fecho os olhos quando quero ver a mim. E no meu mundo imaginário sou livre, sou bela e sorridente. No delírio do abraço e da paixão, sou amada e toda a solidão que me rodeia não existe. Simples como aconchegar-se a um cobertor num dia frio, simples como ler um livro – sim, eu gosto de Djavan! –, faço-me aquela que quero ser. E embalo-me nesse acalanto.

Tenho feito tanto essa incursão ao plano da irrealidade, minha Terra do Nunca, que já é difícil conciliar trivialidades necessárias – como comer ou dormir, por exemplo – com a plenitude que só encontro entre fantasias. Cada vez vivo mais dentro de mim, cada vez mais ouço as vozes que dialogam comigo e me separo do monótono monólogo da realidade. Por vezes, nem mesmo defino o que é real.

Sinto que mergulho fundo, quase sem possibilidade de retorno, nessa criação tão fantástica de mim mesma, em que sou completa e nunca durmo sozinha. Crio amantes, amores, beijos, romances, suores a dois. Crio felicidade e encantamento, poder e juventude, tudo ao mesmo tempo e apenas para mim.

Refaço os passos e redigo as frases tantas vezes quantas necessário para alcançar a perfeição de cada momento. E são momentos perfeitos. Tanto que fica cada vez mais complicado retornar desse mergulho na escuridão da mente, emergir para a luz da fleuma que me aguarda aqui fora. Cada vez mais difícil voltar. Deve ser desse jeito, bem assim mesmo, que se enlouquece.

sábado, 25 de junho de 2016

Tem horas

Tem horas que eu queria só um peito para recostar a fronte. Poder pender meus terrores ao conforto do pulsar de outro coração. Fechar meus olhos e ter a testa amparada por outra força, outra posse, outra coragem. E ancorar, nem que por um ínfimo segundo, no porto seguro além de mim mesma.

Tem horas que eu adoraria a mão alheia espalmada num afago em meu rosto, um carinho simples, fugaz, descompromissado. Deixar suspiros escaparem aliviando a pressão. Ter somente a leveza do toque a sustentar essa alma cansada que tanto pesa, que tanto pena, que escora o fardo que sou eu.

Tem horas que eu daria tudo por um olhar intenso e silencioso. Pelo privilégio de poder ver-me em outras retinas, dessas que me enxergassem inteira. Que me vissem sem máscaras, sem máculas, sem roupa. Um olhar que me dissesse tudo e me fizesse todas as juras. Que jurasse me assistir além de mim.

Tem horas que eu me contentaria com o sorriso, o colo, o abraço. Eu me satisfaria facilmente com qualquer minúscula tentativa de afeto, de achego, de abrigo. Eu seria feliz com qualquer contato, qualquer apreço, qualquer beijo. Seria menos eu por um instante e faria de mim esse nada necessário para recomeçar.