quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Carta ao Cosmo

Desde muito jovem, eu acalento um sonho no fundo da mente. Não sei se tive esse sonho ou se foi ele quem me teve. Só sei que uma das lembranças mais antigas que tenho de mim mesma é uma criança colando recortes em uma folha de almaço e “criando” um jornal. Um pouco mais tarde, depois que aprendi a ler, meus momentos favoritos eram as horas em que ouvia e copiava histórias lidas por minha avó, pequenos contos de uma cartilha pré-escolar. Ela lia, eu escrevia.

Já um tanto mais velha, os livros passaram a oferecer uma espécie de fuga da realidade. Eram romances românticos, impróprios mesmo para minha pouca idade. Ainda assim, estavam ali pela casa e eu os lia. Quanto à necessidade de fuga, a palavra atual é mais bonita do que a explicação. Bullying. A fase crítica da adolescência foi marcada por desastres sociais, introspecção e pelas revistas periódicas do Círculo do Livro. Foi assim que o primeiro romance de fantasia caiu em minhas mãos.

Ainda tenho na estante os quatro exemplares amarelados de As Brumas de Avalon. Ainda lembro de cada um dos livros da autora que encomendei depois de ler a saga de Morgana e Artur. Foi no meio dessas leituras que uma pergunta surgiu. Uma questão que mudaria tudo. Será que eu poderia fazer aquilo? E essa foi a primeira vez que imaginei de fato, eu e meus devaneios de 15 anos, que eu também, talvez, pudesse contar histórias.

Claro que, antes disso, houveram os blocos escritos à mão. Contos e historietas bastante ruins, amadoras, nascidas de uma imaginação incauta de estudante da sétima série do que antes se denominava Primário. E poesias, claro! Algumas publicadas em jornais de bairro e de clubes. Quando apresentei três dos meus poemas em aula, a voz da professora me dizendo que eu estava mentindo, que não poderia ter escrito aquilo e que exigia o nome do autor ou me tiraria a nota, me marcou para sempre. Não havia nome de autor, também não houve fuga da recuperação. Quase perdi o ano por escrever algo além do que era esperado da minha capacidade. Pena não ter essa definição clara na época. Seria um elogio.

O fato, enfim, foi que me pus a criar ficção. Em blocos, cadernos, na velha máquina de escrever Olivetti. Sou do tempo da aula de datilografia na escola, o que facilitou tudo. E a adolescência passou em dezenas de livros devorados e calos nos dedos por conta do lápis. Assim que atingi a maioridade, junto com a libertação da casa materna, nasceu também um manuscrito. O primeiro romance, o mais singelo, o florescer aventureiro e fantasioso do que eu nem sabia que sabia fazer. Não era um livro, era um polígrafo datilografado com 188 páginas e encadernado em espiral. Era minha obra de arte!

Foi nessa época que outra frase a respeito de meu talento me atingiu bem no peito. “Tu escreves bem, mas é hora de parar de brincar de escritora e escolher uma profissão de verdade.” Então, fechei meus cadernos de fantasia e abri os de universitária. É possível que eu tenha entendido mal o termo “profissão de verdade”, pois escolhi o que me garantiria ganhar a vida escrevendo. Essa era a grande meta e fui ser jornalista. Quatro anos mais tarde, diploma na mão, convenci a mim mesma de que tinha abdicado da literatura. Pelo menos, da minha, porque nunca parei de ler. Era uma mentira, como descobriria a seguir.

Ao contrário do que eu esperava, e contrariando a real paixão que eu tinha pela reportagem, o jornalismo como profissão durou bem pouco. Logo, a fotografia – que me cativara completamente durante a faculdade – me levaria ao universo da publicidade. Para piorar a situação, voltei ao ambiente acadêmico e me decidi pela especialização em cinema. “Ora veja, cinema! Vai trabalhar no que?” O que eu queria? Eu queria ser roteirista. E fui. Talvez pela despretensão empreendida nessa nova profissão, as coisas tenham fluído tão bem. Escrevi e dirigi curtas-metragens, trabalhei em televisão, ganhei prêmios e um lugar no complicado mundo da produção de comerciais. Tive meus 15 minutos de fama.

A facilidade de levar a público algumas das minhas histórias fez com que a gana de escrever amenizasse um pouco. Fazer filmes era um substituto eficiente ao criar literário. Embora o livro fosse o objeto de desejo mais idealizado. Foi pensando nisso que entrei em meu primeiro concurso de contos. Com isso, percebi que jamais tinha parado de escrever, como tentei me convencer naqueles anos todos. Descobri pilhas e mais pilhas de conto espalhados por todos os lados. Quase uma década de produção escondida em páginas pautadas, blocos de notas, arquivos de Word.

Fui uma das vencedoras daquele concurso. Tive dois contos publicados no inverno de 2000. Minhas histórias estavam, enfim, nas páginas de um livro. Achei que era o suficiente e tratei de travar o foco na carreira. E os anos passaram mais loucos e mais velozes.

Minha filha nasceu no outono de 2007. Junto com esse, que foi o fato mais doce e apavorante de todos, encerrou-se de vez minha vida de produtora publicitária. Decidi parar tudo e ser mãe. Foram três anos lindos e lúdicos até que meu bebê começasse a ficar independente de mim. E percebi que tinha tempo de sobra, tinha minha casa, minha criança, meu blog, meu emprego em home office trabalhando para uma editora de livros médicos. Tinha uma vida normal.

Normalidade. Essa palavra precisa ser repensada um pouquinho. Eu sempre soube que não era normal. Nunca fui. As coisas pelas quais eu deveria lutar não me pareciam interessantes. As metas de vida das mulheres – e homens – com quem cresci não me diziam nada. Nunca consegui ser feliz em um emprego das 8 às 18. Nunca me conformei com uma única tribo ou música ou ídolo. Nunca me desfiz de meus amigos imaginários. Nunca me casei. Penso que sou uma espécie de idealista, uma inconformada crônica. Mas, eu tentei. Ninguém pode dizer que não tentei ser normal, cor-de-rosa, de salto alto e batom. Só não funcionou.

Certa noite, tive um sonho. Sonho mesmo! Acordei com uma cena na cabeça, três personagens. E eles tinham rostos e nomes e personalidades. E eles tinha uma história. Anos mais tarde, li que J. K. Rowling sonhava com Harry Potter. O meu poderia ter sido só um sonho, daqueles que fazem a gente sorrir e depois são esquecidos. Bom, não foi assim. Um mês mais tarde, finalizei a história daqueles personagens. Escrevi como se arrancasse da alma aquela ficção. Outra vez o germe da literatura invadia meu sangue. Não, não tem cura para isso.

Dessa vez, porém, pensei com meus botões: “Já fiz tudo. Só falta isso.” E, aos 36 anos, desisti de tentar frear esse ímpeto, desisti de desistir e me joguem de corpo, mente e espírito numa empreitada tanto devastadora quanto sublime. Publiquei meu primeiro livro em 2012 – esse do sonho! De lá até aqui, já são 10 livros publicados, entre contos, crônicas e romances, entre impressos e digitais. Nesse caminho, tive o privilégio de ajudar a parir mais de cinquenta obras de variados estilos e autores. Recentemente, tornei livro de verdade aquele velho polígrafo encadernado em espiral. Meu primogênito engavetado por tanto tempo. Lancei-o depois de 25 anos exatos de sua criação.

Em todo esse tempo, a literatura nunca me abandonou e eu, apesar de escorraçá-la da minha vida, sempre a levei no coração. Entre erros e acertos, acho que fui bem. Fui tão bem e tão intensa nesse desejo de ficcionar que, tenho sentido, esse veio d’água esgotou-se. Agora, tenho vivido meu luto interno por algo que finalmente morre em mim. Não posso dizer que vou parar de escrever, pois não sei fazer mais nada de verdade. Contudo, creio que posso encerrar com mérito essa fase “escritora” da qual desfrutei tanto até aqui.

Não sei se a inspiração realmente me deixou de lado, se as musas estão apenas de férias ou se é de uma sacudida assim que minha criatividade precisa para recomeçar. Só sei que, mais uma vez, entro em estágio de mutação. E, por enquanto, a literatura em mim será uma boa lembrança. Não sei o que fazer daqui para frente. Não sei se o tempo terá uma resposta. Por agora, um brinde ao futuro. Ou não.

Nenhum comentário: